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Abriram o baú de Cafi, o homem das capas de disco antológicas

Era uma tarde de terça-feira e o então jovem universitário encarava mais um longo expediente no Instituto Gênesis, a incubadora de empresas da PUC-RJ. “Guelzinho, tá um dia lindo, bora dar um mergulho no Arpoador?”, veio o convite pelo telefone. A resposta, rápida: “Pai, não dá, estou trabalhando”. Miguel Colker lembra com carinho a conversa curta que resume bem o estilo de vida de seu pai. Carlos da Silva Assunção Filho (1950-2019), o fotógrafo Cafi, praticou no seu ofício a arte do encontro. Bon vivant – e portanto disponível para pegar uma praia no meio da semana -, ele não saía da rua e gostava de andar cercado de gente.

Perseguia uma boa foto tanto quanto boas histórias e bons personagens. Nascido em Pernambuco, radicado no Rio desde os 13 anos, Cafi morreu em pleno Arpoador, de infarto, festejando o Ano-Novo de 2019. Deixou amigos e histórias, além de um acervo monumental e meio bagunçado. Miguel Colker, que depois da faculdade se tornou produtor cultural, começa a organizar esse tesouro.

Copacabana do século XXI: as imagens do bairro serão reunidas em livroCafi/Divulgação

O jeitão descansado do fotógrafo contrasta com a imensidão da sua obra. Na sede da produtora de Colker, o legado paterno ocupa espaço em caixas de papelão, arquivos e uma mapoteca. Ali estão guardadas fotos, é claro, mas também contatos, rolos de negativo, cromos de pequenos e grandes formatos, CDs com imagens digitalizadas, pinturas e desenhos.

Em meados de setembro, a montanha de material começou a ser explorada pela pesquisadora Carla Lopes, com a ajuda de três assistentes. O projeto de catalogação, digitalização e acondicionamento apropriado está bem no início: nos primeiros dez dias, a equipe analisou 5 000 imagens, de um total estimado em 100 000. Cafi fotografou a cultura brasileira em toda a sua riqueza.

Foi um pioneiro no registro do maracatu de sua terra natal. É autor de cerca de 300 capas de disco – enorme, a lista vai do Clube da Esquina a Cássia Eller, passando por Alceu Valença, Chico Buarque e a banda Blitz. Gregário, tornou-se amigo dos artistas que fotografou e acabou participando de momentos importantes da cena cultural carioca.

Mãe de Miguel e de Clara – Cafi tem ainda uma terceira filha, Joana, de um relacionamento anterior -, a coreógrafa Deborah Colker foi casada com o fotógrafo por pouco mais de dez anos. Os dois se conheceram nos primórdios do Circo Voador, nos históricos dois meses do verão de 1982 em que a lona, recém-inaugurada, funcionou no Arpoador. Já com o Circo instalado na Lapa, eles se aproximaram. “O Circo Voador foi muito forte para nós. Ele vivia lá dentro, fotografando as atrações, falando da importância desse palco não só como casa de shows, mas como um lugar de criação”, lembra Deborah.

<span class="hidden">–</span>Redação/Veja Rio

Na década anterior, Cafi acompanhou (e fotografou) o grupo de dança Coringa, que tinha Deborah Colker entre os bailarinos, e a trupe teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone. Antes ainda, foi apresentado pelo compositor e amigo Ronaldo Bastos a um jovem cantor chamado Milton Nascimento. “Milton estava no Rio com sua galera mineira, o pessoal do Clube da Esquina. Papai tinha uns 20 anos na época e começou a sair com essa turma”, conta Miguel Colker. Dois dos muitos resultados desse encontro são as históricas capas dos  discos Clube da Esquina (1972) e Minas (1975), álbum-solo de Milton Nascimento.

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Descobertas do acervo: Alceu Valença vestido de cangaceiro nas ruas de CopacabanaCafi/Divulgação

Ainda nos anos 1970, mais precisamente em 1972, Cafi e o amigo Ronaldo Bastos tiveram a ideia de criar um coletivo de poesia, Nuvem Cigana, inspirados por um momento lisérgico à beira da praia. “Papai foi sempre assim. Ele ia embarcando. Não era do Asdrúbal, mas ficou próximo e acabou casando com a Nina de Pádua, atriz do grupo. A Nuvem Cigana, ele e o Ronaldo inventaram com o intuito de ganhar dinheiro. Só não sei como eles pretendiam fazer isso”, conta o filho, achando graça.

Cafi estava em todas – tanto pelo jeito de ser quanto por suas origens. Tinha ilustres pernambucanos como parentes: a mãe, Maria Clara, era irmã do artista plástico Augusto Rodrigues e prima do dramaturgo Nelson Rodrigues e do jornalista Mário Filho. Na casa do “tio Augustinho”, no Largo do Boticário, o garoto assistiu encantado a uma roda comandada por Heitor dos Prazeres, um dos pioneiros nomes do samba carioca. E seguiu arrebatado pela arte brasileira o resto da vida.

“No Circo, além de uma galeria de exposição, ele fazia um jornal semanal, o Expresso Voador. A gente nunca contratou o Cafi para fotografar nada, mas ele registrou tudo, o começo no Arpoador, os shows de Tim Maia e Ben Jor, o rock dos anos 80”, lembra o agitador cultural Perfeito Fortuna, fundador do Circo Voador e da Fundição Progresso. “Fotografou tudo o que era culturalmente importante nos últimos cinquenta anos. Se não tinha o Cafi, é porque não era importante”, resume Perfeito.

Descobertas do acervo:a banda Blitz bem no começo da carreiraCafi/Divulgação

Registros históricos, flagrantes de artistas como Alceu Valença, Chico Buarque, Fagner, Jards Macalé, Milton, Miúcha e muitos outros, paisagens urbanas e rurais, manifestações populares, composições artísticas – é grande a  expectativa sobre o que ainda vai ser descoberto no processo de catalogação do acervo. A trajetória de Cafi já inspirou o documentário Salve o Prazer, recém-lançado, dirigido por Lírio Ferreira e Natara Ney – com os dois, a propósito, entre um chope e outro no Baixo Gávea, participou da fundação do bloco Me Beija que Eu Sou Cineasta, em 2005.

Miguel Colker pretende reunir o material digitalizado no portal Cafi Digital. Antes, vai lançar o livro Copacabana — Capital do Outro Mundo, com fotos mais recentes do bairro, feitas nas duas primeiras décadas deste século XXI. No texto de abertura, assinado por Joaquim Ferreira dos Santos, o escritor e jornalista conta que certa vez encontrou o fotógrafo cercado de amigos, saindo de um chope no Pavão Azul, conhecido bar de Copacabana.

Descobertas do acervo: sessão de fotos com Chico BuarqueCafi/Divulgação

Joaquim perguntou o que ele fazia por aquelas bandas e Cafi respondeu: “Curtindo”. Curtindo ele levou a vida, tornou-se carioca da gema sem perder o sotaque arretado e ainda produziu uma obra que merece ser revisitada.

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