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A aposta do novo presidente da Bolívia no lítio para reviver boom econômico de quando era ministro de Evo


Luis Arce vê na industrialização e na produção do lítio a esperança de retorno da economia em alta de quando foi ministro da Economia de Evo Morales. Arce vê na industrialização e na produção do lítio a esperança de retorno da economia em alta
EPA via BBC
Apesar de os resultados oficiais ainda não terem sido proclamados, a Bolívia já tem um vencedor na eleição presidencial realizada no domingo (18): Luis Arce, que foi ministro da Economia durante a Presidência de Evo Morales, comemora o triunfo após seus principais oponentes terem reconhecido publicamente a derrota.
Agora, Arce se prepara para assumir o posto e botar à prova uma de suas principais bandeiras de campanha: a aposta na industrialização e na produção do lítio para reviver o boom econômico de quando foi ministro, como ele mesmo enfatizou na reta final da disputa.
“Com a industrialização do lítio, vamos gerar 130 mil novos postos de trabalho diretos e indiretos, além de 41 novas indústrias que vão gerar ainda mais emprego para os bolivianos”, disse Arce.
Luis Arce e Evo Morales em encontro em Buenos Aires, em 7 de fevereiro de 2020
Agustin Marcarian/Reuters
Estima-se que a Bolívia tenha uma das maiores reservas deste metal leve usado em baterias como as de celulares e de automóveis elétricos. O governo Evo tinha chegado a acordos com uma empresa da Alemanha e outra da China para a exploração e produção do produto, que seriam realizadas em parcerias, mas mantendo-se o controle o estatal.
A anulação da eleição presidencial do ano passado levou ao congelamento dos acordos, segundo o ex-presidente. Ele e Arce afirmaram em entrevistas e em suas redes sociais que a eleição teria sido anulada como resultado do “golpe do lítio” porque envolveria interesse de empresas americanas que estariam de olho nessa produção.
“Não foi um golpe contra o indígena, mas pelo lítio. (‘O golpe’) foi desenhado por transnacionais interessadas na sua privatização junto com a do gás”, disse Arce, recentemente.
Mas, afinal, o lítio pode efetivamente levar a um novo salto econômico boliviano?
‘Ouro branco’ ou ‘fetiche’?
Em entrevista à BBC News Brasil, três especialistas no assunto deram opiniões diferentes sobre a possibilidade de o lítio, chamado de ‘ouro branco’, ser a alavanca que reerguerá a economia boliviana que este ano deverá registrar a maior queda da sua história – cerca de 10%, segundo o Banco Central do país, e em torno de pelo menos 6%, de acordo com levantamentos internacionais.
O ex-gerente executivo da empresa estatal Yacimientos de Lítio Bolivianos (YLB), durante o governo Evo, Juan Carlos Montenegro, disse que as reservas estimadas de lítio foram comprovadas por organismos do governo americano e por empresas nacionais e estrangeiras.
“Nosso projeto envolve 14 fábricas, que serão o núcleo da industrialização do lítio, até 2025. Essas fábricas vão demandar insumos, como lâminas de cobre, e então serão necessárias as plantas destes insumos e mais outras sete de seus derivados. É um projeto grande para atender à demanda mundial e para isso queremos contar com a participação privada”, disse Montenegro.
Segundo ele, seriam necessários investimentos de US$ 4 bilhões para este núcleo da produção e o país deverá ter rendimentos de pelo menos US$ 6 bilhões anuais pela produção de lítio e suas ramificações.
Até o ano passado, disse, antes da troca de governo na Bolívia, o país já contava com cerca de 1.200 empregos diretos ou indiretos, uma fábrica piloto e uma em desenvolvimento no Salar de Uyuni, no departamento de Potosí, na fronteira com o Chile.
“Mas nossas projeções de continuar crescendo foram interrompidas pelos fatos políticos do ano passado. Agora, porém, com a eleição de Arce serão retomadas”, disse Montenegro, que é engenheiro metalúrgico.
O ex-ministro da Energia, Mauricio Medinaceli, analista do setor, disse que o lítio está longe de gerar os recursos gerados pelo gás boliviano.
“Apesar da queda nos investimentos e na produção, o gás ainda é um fator muito importante para a economia boliviana. O lítio ainda não apresentou resultados concretos”, disse Medinaceli. Ele ressalvou, porém, que o custo para extração do lítio da Bolívia tem a vantagem sobre os outros países, como os asiáticos, por exemplo.
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“Na Bolívia, não é preciso cavar minas para tirar o lítio. Ele está numa superfície muito mais acessível, a poucos metros de profundidade. Com isso, os custos seriam menores. Mas o gás é menos complexo para ser produzido e mais barato para ser produzido e para ser enviado aos mercados do Brasil e da Argentina. O lítio ou as baterias de lítio vão precisar de maior infraestrutura e sistema para exportação”, afirmou.
De acordo com Montenegro, estudos teriam comprovado que em uma profundidade de apenas 50 metros, existiria o equivalente a 21 milhões de toneladas do produto, segundo estudos realizados por uma empresa americana e analisados pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos.
“E o Salar tem mais de 200 metros de profundidade. Por isso, o que dissemos é com embasamento cientifico, comprovado”, afirmou o ex-assessor do governo Morales para o lítio. Segundo ele, no ano passado, foram produzidas 430 toneladas em uma fábrica pequena, piloto da operação, e a expectativa, pela projeção realizada no governo de Evo Morales, é de uma produção de 100 mil toneladas até 2025, incluindo as empresas da China e da Alemanha e algumas das ramificações do lítio, incluindo outros dois lugares de Potosí. “Com a eleição de Arce essa produção será possível”, disse.
Para o economista Javier Gómez, da consultoria Centro de Estudos para o Desenvolvimento do Trabalho e Agrário (Cedla, na sigla em espanhol), o lítio é, porém, “quase um fetiche” para os bolivianos.
“Nós sabemos que o lítio é importante, mas ele faz parte muito mais da narrativa política do que da possibilidade real econômica”, afirmou Gómez.
Ele disse que a situação da economia boliviana é grave e que a expectativa é que o futuro presidente tenha que recorrer a organismos internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) para contar com os recursos necessários para que a economia volte a crescer.
“O Movimento ao Socialismo, o MAS, de Evo e de Arce, é muito pragmático. E recorrer ao FMI por recursos extras não seria um problema. O principal agora é que o PIB volte a crescer. As pessoas votaram em Arce, em grande parte, pela esperança de voltar a ter uma vida melhor, como quando ele era ministro e o país e a região viviam o boom econômico”, disse Gómez.
De acordo com a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, Cepal, as economias da região serão as mais afetadas pela pandemia do novo coronavírus. Parece distante a época do boom das commodities quando algumas delas, como a Bolívia, direcionou os recursos do boom para as áreas social e de infraestrutura.
Economista, com estudos na Bolívia e na Inglaterra, Arce é apontado como um dos principais pilares do crescimento econômico de cerca de 5% ao ano e da redução da pobreza nos 14 anos de gestão de Evo.
Arce só deixou o ministério nos quase dois anos em que realizou tratamento contra o câncer num hospital em São Paulo. No governo de Evo, os recursos da nacionalização do petróleo e do gás foram direcionados para a distribuição de planos sociais, como o Juancito Pinto, para que as crianças não deixem de ir à escola.
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