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Do alto da Penha, os subúrbios celebram o aniversário da Leopoldina

O mês de outubro costuma ter um sabor particular nos subúrbios cariocas, talvez pelo gosto dos saquinhos de Cosme e Damião que continuam a ser saboreados durante a distribuição do Dia das Crianças. Quem sabe sejam os ares da primavera que seguem colorindo os céus da cidade e anunciam a chegada de um mosaico de pipas e balões para alegrar o mês das padroeiras Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora da Penha de França. Os sons também contribuem para criar tal atmosfera: até parece que os pássaros, o barulho dos trens cortando o dia e os fogos de artifício querem avisar que a festa está pronta para começar.

Agora está quase na hora de voltar a celebrar a efeméride mais antiga da cidade, com 385 anos. No mesmo dia da festa da Penha, próximo 23 de outubro, igualmente comemoramos o aniversário de 134 anos da Leopoldina. Nesse contexto, certamente o samba pede passagem para reverenciar seus grandes nomes. Não podemos deixar de registrar que, há exatos 12 anos, em pleno Dia do Poeta, o grande Luiz Carlos da Vila nos deixou prematuramente.

Em meio ao legado desse gênio suburbano, nascido em Ramos, morador da Vila da Penha e compositor consagrado em Vila Isabel, destaca-se a criação do grupo Suburbanistas, em parceria com Dorina e Mauro Diniz, por sinal, dois aniversariantes do mês de outubro.

Mesmo sendo historicamente conhecida como reduto do choro, precisamos destacar a relevância da Penha para outros gêneros. A terra de Alfredo da Rocha Vianna Filho, o genial Pixinguinha, e de Joel Nascimento – outro aniversariante de outubro, que acaba de fazer 83 anos, no último dia 13, e que foi o principal discípulo de Jacob do Bandolim no grupo Época de Ouro.

Foi nas imediações da igreja que Ernesto dos Santos, mais conhecido como Donga, lançou a histórica “Pelo telefone”. A dimensão da festa era tão relevante para a capital do país que chegava a ser considerada como a segunda maior comemoração popular, passível de comparação com o Carnaval. Olavo Bilac fez questão de registrar o importante acontecimento, e outros nomes como Tia Ciata, Noel Rosa, Ismael Silva, Cartola, Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, Beth Carvalho e muitos mais frequentaram e cantaram as delícias e belezas da Penha.

Até hoje Ricardo Rachado, compositor suburbano criado em Olaria, não deixa de pagar sua promessa, e todo primeiro domingo de cada mês sobe as escadarias da igreja. Ele é um dos autores da letra “A Padroeira”, junto com Vaguinho, e me confidenciou que atribui à santa que fica no alto da pedra a escolha de seu samba, na quadra do Cacique de Ramos, para entrar no repertório da madrinha Beth Carvalho. Desde então, a música se tornou uma espécie de hino suburbano.

A pequena capela foi erguida pelo capitão Baltazar de Abreu no início do século XVII, mas foi somente a partir do XIX que a festa se popularizou. A devoção à santa teve início devido à forte presença portuguesa na região. No entanto, os negros foram aos poucos se apropriando economicamente, religiosamente e culturalmente da festejo.

É importante destacar que o pároco responsável pela igreja, entre 1879 e 1907, era o padre abolicionista Ricardo da Silva, conhecido por oferecer abrigo e cuidados aos escravos fugidos, fazendo com que a área também fosse identificada como “Quilombo da Penha”.

Festa da Penha década de 1940Instituto Histórico da Baixada de Irajá/Divulgação

 

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O morador e pesquisador Augusto Gonçalves de Lima lembra que a Leopoldina é uma região da Zona Norte localizada entre os marcos naturais da orla da Baía da Guanabara e a Serra da Misericórdia, que por sua vez compõem a Terceira Área de Planejamento urbanístico do município. A região contempla dezesseis bairros: Bonsucesso, Brás de Pina, Complexo do Alemão, Cordovil, Jardim América, Manguinhos, Maré, Olaria, Parada de Lucas, Penha, Penha Circular, Ramos, Triagem, Vigário Geral, Vila da Penha e Vila Kosmos.

A origem do nome que passa a identificar essa importante parte do subúrbio se deve à instalação da Estrada de Ferro Leopoldina, importante investimento imperial para agilizar o deslocamento de cargas e passageiros da Zona da Mata para a então capital, Rio de Janeiro. Ligando os montes mineiros até a Serra do Mar, sua construção teve a primeira parte concretizada em 1874, para permitir o escoamento da produção de café das fazendas da Zona da Mata. Em 23 de outubro de 1886, a ferrovia foi definitivamente concluída e seu nome  passou a homenagear à Imperatriz Maria Leopoldina de Áustria.

Segundo Augusto Lima, na Leopoldina a cultura claramente reflete a alegria de seu povo, e produz suas marcas no atual território graças as tradições herdadas dos rituais indígenas, acrescentadas às festas dos colonizadores europeus, culminando na importante influência africana. Para falar um pouco mais sobre o panorama atual dos subúrbios e da importância cultural, histórica e religiosa da Leopoldina convidamos o ator, autor e humorista Hélio de La Peña para uma live nesta quarta-feira, dia 21 de outubro, às 19h, no canal Iaras e Pagus no Youtube.

Como é bom saber que temos muito pra falar da nossa Leopoldina, seja da própria festa da Penha, ou do Parque Shanghai, dos carnavais nas ruas, dos banhos de mar à fantasia na praia de Ramos… sem falar do Grêmio Recreativo Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense, do Cacique de Ramos, da centenária Fiocruz, do Campus da UFRJ na Ilha do Fundão e de muitas e muitas outras incríveis histórias.

 

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O texto dessa coluna foi escrito pelo historiador Rafael Mattoso em parceria com o pesquisador Augusto Gonçalves de Lima e a Jornalista Sandra Crespo.

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