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A redenção do feminino na era de Aquário

Era meu desejo falar sobre esperança, ano novo, champagne e celebrações. Porém, no contexto atual, e tendo em vista que ópera costuma a ser reconhecida mais pelo seu lado trágico do que cômico, fica algo entre difícil e esquizofrênico tanta demonstração de alegria. Para ‘piorar’, veio a morte do famoso assassino Doca Street lembrar antigos traumas da sociedade brasileira; feridas abertas e questões mal resolvidas, que só se agravam pela morte, a facadas e em plena noite de Natal, de uma juíza carioca — para citar apenas o mais em evidência dentre a meia dúzia de crimes ocorridos apenas neste último feriado. São enredos trágicos que não merecíamos mais ter de discutir e comparar com grandes dramas líricos; e eles reacendem o desejo falar sobre a cultura da destruição do feminino.

Mas há esperança, quero crer. Quando aconteceu o crime da praia dos ossos, em 1976, a minha geração era ou pequena demais ou talvez nem nascida. No entanto, foi tão emblemático que a tragédia perseguiu os noticiários por anos à fio e ajudou a gestar todo um empoderamento do movimento feminista da época. O assassinato da socialite Angela Diniz, uma mulher livre mas que não tinha nenhum envolvimento especial com a luta por direitos naqueles anos 1970, acabou sendo de muita importância para o feminismo brasileiro. A absurda tese de “legitima defesa da honra” com todo seu moralismo tosco, e a própria história do crime, foi recentemente recuperada numa excelente série de podcasts da Rádio Novelo, enriquecida de detalhes e contornos trágicos dignos de ópera. Se fossem postos em música, os eventos que levaram ao crime da praia dos ossos, em Búzios, dariam uma importante ópera brasileira para o século XXI. Talvez começasse ainda no baile de debutante, com uma menina sendo o objeto (literalmente) das mais variadas atenções masculinas, ainda que de homens muitos anos mais velhos do que ela. Incentivada pela própria mãe a ser esse ‘Animal de caça’, com a beleza à prêmio. Entre um ponto e outro da trama, a mulher que ao se permitir o desejo e a felicidade é caçada como pantera e termina com sua beleza destruída por quatro tiros no rosto, É assustadoramente simbólico este gesto de desfiguração.

Personagem do século XX, Ângela Diniz não seria um exemplo único de feminicídio na ópera. Nos séculos anteriores ja reinava a perversa idéia de “defesa da honra”: Desdemona é estrangulada por Otello; Carmen e Nedda morrem apunhaladas por Don Jose e o palhaço Canio; Francesca da Rimini é esfaqueada pelo mesmo marido que a enganou na hora do casamento; Salomé é esmagada por Herodes, já que esse não suportava ser preterido e, pior, descobrir na jovem o desejo sexual; Paul, de A Cidade Morta, usa a trança da finada primeira esposa para estrangular Marietta, já que esta recusava-se a ficar com ele; etc. Apenas alguns exemplos, pois, se fôssemos falar dos assassinatos ‘indiretos’ (onde a mulher é levada à própria morte), ou os ‘quase assassinatos’, a lista entraria por algumas das mais admiradas óperas e balés: La Traviata, Giselle, Madame Butterfly, Rigoletto, Aida, Trovador, Romeo e Julieta, O Navio Fantasma, Crepúsculo dos Deuses e talvez até Lago dos Cisnes..

Se é possível argumentar que estas obras acima, que dominam o repertório, são todas do século XIX e refletem a moral daquela época, é igualmente válido dizer que está mais do que na hora de rompermos com a aceitação desses exemplos. Podemos aceitar um novo pensamento moral como aceitamos a internet ou, há muitas décadas, a penicilina e as vacinas, ou os carros no lugar de cavalos. Toda inovação desperta reações e ameaça morais antigas. O puritanismo vitoriano do século XIX nos influencia ainda tremendamente; se por nada mais, porque foi então que nasceu a noção do amor como sentido principal da vida. Porém é preciso rebelar-se contra alguns conceitos e exemplos que, indireta ou inadvertidamente, autorizam a violência contra a mulher — ou contra qualquer um que seja considerado minoria ou mais fraco. Quando falamos da luta de um grupo contra a violência, estamos falando da luta de todos os grupos perseguidos por homofobia, racismo, intolerância religiosa.

A cultura da destruição do feminino está com seus dias contatos. O mandamento “não matarás” não se conjuga perto do verbo amar. Na frase “matou porque não aceitava o fim do relacionamento” em breve só será possível ler “matou” sem qualquer possibilidade de desculpa ou  atenuante romântico-passional. Lamentavelmente, haverão mais vitimas antes do final desta guerra — mas sabemos que sao batalhas pelo humano, abençoadas pela era de Aquário. Assim com esse esperança de redenção do feminino (e pelo feminino), desejo a todos um feliz ano novo.

André Heller-Lopes,
Encenador e especialista em óperas, duas vezes Diretor Artístico do Municipal do Rio,
é Professor da Escola de Música da UFRJ.

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