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Bolsonaro quer ressuscitar sem morrer

Na política é possível ressuscitar sem precisar morrer antes. Jair Bolsonaro não precisou ir à óbito para convidar o líder do Centrão e presidente do PP, Ciro Nogueira, como o novo chefe da Casa Civil, a “alma do governo” nas palavras do presidente. Para alguém eleito com a promessa de acabar com a Velha Política, Bolsonaro faz agora exatamente o contrário do que havia dito.

É fácil entender por que Bolsonaro chamou Nogueira. Rejeitado por três de cada cinco brasileiros, o presidente caminhava para uma derrota pra Luiz Inácio Lula da Silva em 2022. Com Nogueira na coordenação do governo, Bolsonaro acredita que receberá em troca a maioria no Congresso de mais de 300 deputados, o tempo de TV e o dinheiro do fundo eleitoral dos partidos aliados e os palanques estaduais para chegar com chances na eleição. É uma aposta e, como toda a aposta, envolve riscos.

O maior deles é a sensação de traição dos eleitores. “Acho que tem resistência natural a qualquer pessoa que seja de fora do bolsonarismo puro. Mas quem é Bolsonaro sabe que, por mais que eventualmente não possa entender a atitude dele (presidente) agora, que existe um propósito”, tentou justificar a fanática deputada Carla Zambeli. Na última semana, as redes digitais bolsonaristas não haviam ainda encontrando um discurso para justificar o giro de 180 graus.

Governantes de todos os matizes esquecem o que juraram na semana passada para recomeçar do zero uma nova relação com os eleitores. Fernando Collor tentou isso quando substituiu Zélia Cardoso de Mello por Marcílio Marques Moreira em 1992 e talvez teria conseguida não fosse a denúncia de corrupção do irmão que levou ao impeachment. FHC foi obrigado a recomeçar seu governo com as mortes dos amigos Sergio Motta e Luis Eduardo Magalhaes em 1998 e foi desleixado na mudança da política cambial. O governo Lula se divide antes e depois da saída de Antonio Palocci, em 2005. Dilma Rousseff recomeçou seu governo depois das marchas de 2013, de novo quando colocou Joaquim Levy no Ministério da Fazenda em 2015 e tentava um último giro ao nomear Lula para a Casa Civil, ação impedida pela dupla de magistrados Sergio Moro e Gilmar Mendes.

Bolsonaro já havia feito um cavalo-de-pau ao colocar no Planalto o general Luis Ramos. Com Ramos, o Exército ganhou mais de 6 mil cargos comissionados no governo, o Ministério da Saúde foi passada para um suposto especialista de logística, o general Eduardo Pazuello e a Casa Civil entregou mais poder à Câmara que ao Senado. Passados dois anos, os cargos comissionados dos oficiais militares continuam, mas a gestão Pazuello permitiu mais de 500 mil mortes e o Senado virou o foco da oposição com a CPI da Covid. Uma catástrofe. Com Ciro Nogueira. Bolsonaro tenta ressuscitar.

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