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Carta ao Leitor: Presidente de oposição

Quadragésimo primeiro presidente dos Estados Unidos e sucessor de Ronald Reagan, George H.W. Bush (1924-2018) teve um mandato atípico. Depois de bater em 80% de popularidade ao deflagrar a Guerra do Golfo, em 1991, ele viu sua aceitação entre o eleitorado despencar no ano seguinte, o que o levou a perder uma reeleição que muitos analistas já consideravam ganha. O motivo para a insatisfação foi uma abrupta crise econômica, que lançou o país em uma recessão. Para vencer Bush, o rival democrata Bill Clinton fustigou-o com críticas ao déficit fiscal e ao aumento nos impostos, seguindo à risca a orientação de James Carville, seu estrategista de campanha. É de Carville a frase que define esse contexto e que entrou para a história da política: “It’s the economy, stupid!” (É a economia, estúpido!).

Passados quase trinta anos, o presidente Jair Bolsonaro talvez não conheça a máxima de Carville — ou simplesmente acredite estar imune ao fenômeno que representa. Se fosse mais atento, perceberia que perigosas nuvens se alinham no horizonte a cada ataque que faz à estabilidade democrática do país, aos demais poderes constituídos e à ordem institucional. Sob o júbilo da horda de ultrarradicais que o seguem e idolatram, a turma que vai sair às ruas no próximo 7 de setembro, a crescente turbulência provocada pelo presidente tem solapado a economia do país, em um surpreendente processo de autossabotagem jamais visto em um ocupante do Palácio do Planalto. É como se tivéssemos um presidente de oposição — uma inovação esdrúxula, ridícula e altamente prejudicial ao Brasil.

Pouco afeito às questões técnicas de gestão pública ou aos fundamentos econômicos, Bolsonaro, ao subir continua­mente o tom de seus arroubos autoritários, está pulverizando a confiança dos investidores potenciais no país — e, consequentemente, piorando a vida da população brasileira. Reportagem na edição da semana mostra como e por que, impulsionados pelo destempero da autoridade máxima da nação, o dólar se mantém em patamares muito mais elevados que o esperado e o investimento estrangeiro despencou a um volume que equivale a menos de um quarto do registrado em janeiro. Em resumo: o Brasil, que poderia estar se aproveitando da alta liquidez internacional e do novo ciclo de commodities, na verdade se vê acuado diante do fantasma da inflação, dos preços astronômicos dos combustíveis e da ameaça de uma grave crise energética.

Ao promover o caos, Bolsonaro trai a maioria daqueles que cravaram 17 no último pleito presidencial. Os eleitores o elegeram para governar o país e implantar um sistema econômico liberal. Empossado, porém, ele prefere promover uma contínua confusão, sem pesar as consequências de seus atos. Na realidade paralela em que habita, as adversidades são sempre parte de um complô armado por adversários e inimigos imaginários. Em seus devaneios, acredita que passeios de moto e manifestações, associados a um pacote de obras eleitoreiras, impulsionarão sua popularidade (obviamente, em queda vertiginosa no momento). Iludido, não percebe que tais medidas podem até lhe trazer fotos e votos, mas dificilmente conseguirão impulsionar a recuperação econômica de que o país tanto precisa e que poderia representar a sua própria reeleição. Amante de armas, Bolsonaro está dando um verdadeiro tiro no pé.

Publicado em VEJA de 8 de setembro de 2021, edição nº 2754

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