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Crise hídrica ameaça 'controle técnico' e pode expor sistema elétrico a falhas, apontam especialistas

Na prática, segundo estudiosos da área, sistema corre o risco de operar no limite, quando aumenta a possibilidade de problemas no fornecimento. Governo adotou medidas para poupar energia, mas descarta apagão. A piora nas condições de chuva e a crise hídrica/energética, que se agravaram nas últimas semanas, ameaçam o “controle técnico” do sistema elétrico e expõem o país ao risco de falhas de geração e transmissão de energia.
Na prática, isso significa que poderá haver problemas no fornecimento. A opinião é de especialistas ouvidos pelo G1.
Os especialistas também acreditam que o governo federal está demorando a tomar medidas efetivas para evitar o esgotamento do sistema.
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“A principal caixa d’água do setor elétrico, que são os reservatórios do Sudeste e do Centro-Oeste, estão com 22% de nível de armazenamento, inferior ao nível de agosto de 2001, do famoso racionamento”, explicou Renato Queiroz, pesquisador do Grupo de Economia da Energia do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
“O próprio ONS [Operador Nacional do Sistema Elétrico] fez uma previsão que o sistema pode chegar a 10%, isso é muito grave, porque você começa a perder o controle técnico”, completou Queiroz.
Luiz Augusto Barroso, diretor-presidente da consultoria PSR e também ex-presidente da EPE, prevê que o sistema elétrico deve começar, a partir de outubro, a operar na chamada “reserva operativa”. Ou seja, no limite.
É quando, segundo ele, aumenta a vulnerabilidade do sistema e o risco de falhas no fornecimento de energia.
“Houve em agosto uma deterioração significativa das condições de suprimento [de energia] em relação às nossas análises anteriores, e a previsão de chuvas para setembro não estão boas. O risco de problemas de suprimento de ponta, que é operar entrando na reserva operativa, é da ordem de 30%, o que é alto. Essa operação no limite aumenta a vulnerabilidade do sistema a falhas de geração e transmissão”, detalhou Barroso.
Fantasma do racionamento
O governo vem garantindo, até o momento, que não haverá racionamento de energia, como houve em 2001.
Para o presidente Jair Bolsonaro, seria desgastante, do ponto de vista eleitoral e da própria popularidade de sua gestão, ter que adotar a medida, num momento em que o país patina na economia, com inflação, desemprego e pobreza em alta.
Em declarações recentes sobre a crise energética, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, vem sendo enfático: “Vou repetir, com total tranquilidade que não trabalhamos com hipótese de racionamento, isso tem que ficar muito claro”, declarou na última semana.
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Para Queiroz, da EPE, se o período chuvoso que se inicia em novembro não for bom, o pais poderá ter de recorrer ao racionamento compulsório de energia em 2022.
Bruno Pascon, sócio-fundador e diretor do CBIE Advisory, entende que o racionamento é uma necessidade imediata, para evitar um corte ainda maior no futuro.
“Quanto mais tempo demora para o governo decretar o racionamento nos moldes de 2001, mais vai ter de cortar energia”, afirmou.
Medidas tomadas pelo governo
Até aqui, o governo vem apostando em um programa de redução voluntária do consumo de energia por parte de famílias e empresas, que deve ser lançado em setembro.
Para Pascon, isso é pouco. Ele calcula que a carga deveria ser reduzida em 6% a 8% para o país não ter problemas de fornecimento até o início do período chuvoso, em novembro.
“Os consumidores residenciais não costumam ter capacidade de reduzir o consumo, então é possível que a redução voluntária não alcance o seu objetivo”, analisou.
A consultoria PSR, uma das maiores do setor elétrico, calcula que será necessária em 2022 uma afluência (entrada de água nos reservatórios) de cerca de 70% da média histórica para afastar problemas de energia no ano que vem. “Se ocorrer o mesmo período úmido de 2021, passamos ‘no talo'”, diz Luiz Barroso, presidente da PSR.
Queiroz levanta outro ponto. Para ele, há atraso na reação do governo diante do problema. Ele entende que mais usinas termelétricas já deveriam ter sido acionadas. As termelétricas produzem energia mais cara, a partir da queima de combustíveis como óleo ou gás.
“As instituições do setor sabiam que havia um problema de menor chuva ano passado e reservatórios prejudicados. Já sabíamos que 2021 seria problemático. E o que deveria ser feito? Segurar água nos reservatórios e colocar mais térmicas para despachar. Por que não faz isso? Porque nossa conta de luz já é muita cara”, explicou o pesquisador.
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A conta de luz, de fato, tem subido nos últimos meses, com o acionamento das termelétricas. A tendência é que continue subindo, à medida que novas ações para garantir o fornecimento forem tomadas.
O governo nega que tenha demorado a agir. O Ministério de Minas e Energia afirmou que desde outubro do ano passado vem tomando medidas para suprir a demanda, incluindo importação de energia e o acionamento das termelétricas.
Como chegamos até aqui
Desde 2001, o Brasil vem incrementando sua matriz energética. Passou de 70 mil quilômetros de linhas de transmissão em 2001 para 164,8 mil até junho deste ano.
Também aumentou sua capacidade instalada de gerar energia. Saiu, em 2001, de 81 gigawatt (GW), sendo 85% proveniente das hidrelétricas, para 175,8 GW até junho deste ano, sendo 62% de hidrelétricas, 25,5% de termelétricas e o restante de outras fontes.
Apesar da diversificação, especialistas apontam alguns erros de planejamento que ajudam a explicar as crises hídricas recentes.
“O país ficou 20 anos construindo usina hidrelétrica sem reservatório [exemplo Belo Monte, que opera a fio d’água, conforme a quantidade de água existente no rio]. Em 20 anos quase dobrou a demanda por energia e continuamos com o mesmo tamanho de reservatórios de água”, afirma Paulo Arbex, presidente da Associação Brasileira de usinas hidrelétricas e pequenas centrais hidrelétricas.
Ele lembra que houve também uma mudança climática no período, com redução das chuvas durante o período úmido e extensão do período seco.
Para Adriano Pires, sócio-fundador e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), o país diversificou sua matriz energética nos últimos 20 anos com fontes intermitentes (que dependem da água, sol ou vento). Ele afirma que é preciso investir em outras fontes, como o gás natural e a energia nuclear.
“Precisamos colocar mais energia que aumente a confiabilidade do sistema. Quais são essas usinas? A térmica, de preferência a gás natural e a nuclear”, disse Pires.
Piora das condições
O próprio Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) admitiu na semana passada a piora da gravidade da crise hídrica nas últimas semanas. Choveu menos do que o esperado em agosto, o que acelerou o esvaziamento dos principais reservatórios do país.
Medidas adicionais terão de ser tomadas, como importar mais energia da Argentina e do Uruguai e colocar em operação mais usinas termelétricas.
O ONS afirmou que, se não houver oferta adicional de energia a partir de setembro, a geração será insuficiente em outubro e novembro para atender a demanda. Ou seja, o país fica suscetível a apagões.
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