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Daniel Zovatto: “Há uma tempestade perfeita no horizonte”

Grandes manifestações de descontentamento popular têm sacudido a América do Sul. Qual a razão? A pandemia veio acelerar e intensificar um descontentamento que já existia desde o fim de 2019, com protestos no Chile, Equador, Colômbia e Bolívia. Após uma década de redução da pobreza, uma nova classe média que havia se formado se viu abandonada pelo Estado, incapaz de lhe garantir serviços e suporte. O cenário é de tempestade perfeita para um abalo na governabilidade democrática.

Como isso afeta o equilíbrio de forças entre esquerda e direita na região? Os ventos que, a partir de 2015, sopraram a favor dos governos de direita perderam força e a tendência agora é de maior variedade ideológica. Em quatro eleições recentes, duas foram vencidas pela esquerda, na Argentina e na Bolívia, e duas pela direita, no Uruguai e no Equador. E a última, no Chile, resultou em um terremoto político-eleitoral nunca visto.

Como assim? Na votação para a Assembleia Constituinte, para surpresa geral, tanto a direita quanto a centro-­esquerda se deram mal e forças independentes e radicais saíram vencedoras. O resultado abriu uma etapa de grande expectativa, por um lado, e de muita incerteza, de outro.

Qual seria a receita para superar a instabilidade política atual? A América do Sul precisa pôr em marcha, com urgência, uma democracia de nova geração, com mais inclusão e participação. Essa democracia renovada tem de estar assentada em um modelo de desenvolvimento mais avançado e um pacto social que assegure emprego formal e decente, saúde e educação universais e de qualidade e moradia digna.

E se isso não acontecer? Vamos mergulhar em outra década perdida, econômica e socialmente.

A América do Sul tem 20% das vítimas de Covid-19, embora concentre apenas 5,5% da população mundial. É possível reverter esse quadro? Sim, se houver pressa e transparência na vacinação em massa. O vírus permanece conosco por causa de alguns líderes negacionistas, como no Brasil, e de outros incapazes de gerenciar e conter o avanço da Covid-19, sem falar nos indícios de corrupção. São deficiências que magnificam o impacto negativo da pandemia e minam a confiança dos cidadãos nas lideranças políticas.

Publicado em VEJA de 9 de junho de 2021, edição nº 2741