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Gestão de Araújo deixa marcas na reputação do Brasil, dizem ex-diplomatas

Diplomatas e ex-membros do Itamaraty concordam que será necessário um grande esforço de reconstrução da política externa e da reputação brasileira no exterior para reparar os danos deixados pelo chanceler Ernesto Araújo, que comunicou sua demissão do Ministério de Relações Exteriores nesta segunda-feira, 29. A grande maioria dos especialistas, porém, não demonstra otimismo de que isso possa acontecer ainda na gestão do presidente Jair Boslonaro.

“É necessário uma mudança na essência da política externa brasileira, ou essa troca na chefia não trará qualquer resultado”, diz o embaixador Rubens Ricupero. “Ainda que o substituto seja alguém com outro estilo e mais habilidade de negociação, nada adiantará sem um grande esforço de reposicionamento”. 

Segundo o diplomata, que além de ex-embaixador em Roma e Washington também foi ministro do Meio Ambiente no governo Itamar Franco e da Fazenda na gestão FHC, a gestão de Araújo deixa marcas na reputação internacional do Brasil. “Ele antagonizou países, insultou grandes parceiros e acabou se tornando motivo de chacota internacional”, diz. “Infelizmente, o legado que Ernesto Araújo deixa é uma política externa em ruínas, com uma perda significativa no soft power brasileiro”. 

Para o também ex-diplomata Luiz Augusto de Castro Neves, além de uma mudança na substância das relações internacionais do Brasil, é preciso rever a retórica usada pelas lideranças atuais. “As declarações do governo brasileiro em relação à derrota de Donald Trump nos Estados Unidos, assim como as insinuações de que a China poderia ser culpada pelo coronavírus, foram muito danosas para nossas relações”, diz o presidente do Conselho Empresarial Brasil-China e ex-embaixador brasileiro em Pequim.

Os especialistas, porém, não estão otimistas de que algo vá mudar por enquanto. “O chanceler nunca fez nada mais do que cumprir as ordens do presidente. E mudar os rumos da política externa neste momento é atestar que tudo estava sendo feito errado”, diz Castro Neves. “Não estou otimista de que irá acontecer”.

Principalmente no que diz respeito às políticas ambientais, não há confiança de que o Planalto pretenda tomar novos caminhos. “Nada vai mudar, pois para isso seria necessário que Jair Bolsonaro deixasse de ser quem é”, diz Ricupero, se referindo em especial à retórica utilizada pelo presidente em resposta às cobranças dos Estados Unidos e da Europa em relação ao desmatamento na Amazônia.

Araújo anunciou sua demissão depois de pressão do Congresso por sua gestão da pandemia de coronavírus. Na semana passada, o presidente da Câmara, Artur Lira, chegou a dizer que Araújo perdeu a capacidade de dialogar com países. Para o Centrão, o ministro impõe obstáculos à compra de vacinas da China e da Índia.

No passado, a experiência e capacidade do chanceler de lidar com crises também já havia sido questionada. Antes de ser nomeado ministro, Araújo nunca havia comandado uma embaixada no exterior ou assumido grandes postos políticos.

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