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Nos Estados Unidos, os negros são o poder

A democracia americana apesar de suas profundas contradições na aplicação dos seus fundamentos de igualdade e liberdade entre negros e brancos, de sua ambiguidade na convivência naturalizada com ideologia da supremacia branca, e na prática rotineira do racismo estrutural, tem oferecido respostas estonteantes no que diz respeito a inclusão e participação dos negros na política.

Compondo 12% dos quase 320 milhões de americanos e constituindo a grande maioria dos pobres e excluídos economicamente, os negros tradicionalmente têm ocupado espaços importantes no debate e agenda política, nas estruturas partidárias e em postos destacados da administração do estado, apesar da sua limitadíssima capacidade de voto.

Sob essas perspectivas a política e a democracia americana consegue dar um nó na racionalidade e no resultado lógico das coisas e realiza proezas inexplicáveis e incompreensíveis para o observador mediano. Principalmente, se não perdermos de vista que democracia e a liberdade na América foram edificadas sobre o pântano da escravidão e que o próprio estado criou e legalizou um estado do apartheid racial traduzido em bebedouros públicos delimitados entre brancos e negros que perdurou até poucos mais de 60 anos atrás.

Desta forma, se os negros não possuem representatividade demográfica e nem capacidade numérica de voto, se a supremacia branca que instaura as relações sociais afirma a inferioridade dos negros e se a discriminação racial convive e alimenta práticas de violência brutal cotidiana, conforme evidenciada no caso George Floyd, como podemos explicar que num cenário dessa natureza fosse possível vicejar o presidente negro Barack Obama? Como explicar o Secretário de Estado negro Colin Powell, a Secretaria de Estado negra Condoleeza Rice, os ministros negros da Suprema Corte Thurgood Marshal e Clarence Thomas, e como, afinal, explicar as atuais prefeitas negras Muriel Bowser, de Washington, capital dos Estados Unidos e Keisha Lance Bottoms, de Atlanta, capital da Geórgia.

Quer dizer então que o conflito racial é só aparente e superficial? Quer dizer então que a supremacia branca não distingue cor da pele se houver um mérito pessoal extraordinário? Quer dizer que na política o negro se torna branco e tem licença e imunidade para circular no ambiente da branquitude? Quer dizer que regra de ouro democrática da vontade da maioria, faz concessão política com o chapéu dos outros?

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Será que a manutenção da ambiguidade política precisa necessariamente dessa estratégia para emitir alguns sinais e reinar incontestada? Certamente haverá muitas explicações, mas, seguramente, nenhuma delas, deixará de sofrer severas contestações, e nem alcançará um consenso definitivo. Se é que poderão ser inteligíveis.

O governo Biden, que ostenta uma mulher negra na sua vice-presidência e quatro “ministros” negros no seu primeiro escalão, complica ainda mais a situação. Sob essa perspectiva, somados os 59 deputados e 4 senadores, os negros – que representam quase que a porcentagem de sua representação demográfica – podemos dizer que nos estados unidos os negros participam igualitariamente do poder político parlamentar federal. Eles são o poder.

Pode não ser tudo, mas seguramente é um fato extraordinário que só a incompreensível democracia americana pode proporcionar e um fato constrangedor que árida democracia racial brasileira não nunca conseguirá justificar.

Se o dito popular do pau que bate em Chico é o pau que bate em Francisco for verdadeiro, a democracia de lá pode ser a democracia de cá. Se for, como novo tempo que descortina, talvez mais cedo que pensamos os negros brasileiros estarão rivalizando com os gringos Blackpeople.

Até lá, para um Brasil que anda pensando em substituir a saliva pela pólvora, fica a dica: vai ter que pagar o mico de prestar continência para o general negro Lloyd Austin, Secretário de Defesa e primeiro negro a chefiar o pentágono dos Estados Unidos da América.

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