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Novo escândalo atinge Palácio de Buckingham, que tenta recuperar brilho

Um dos requisitos para a presença, em pleno século XXI, da anacrônica instituição da monarquia que não governa é sua aura de família diferente das outras. Os membros da realeza são distantes mas simpáticos, falam com desenvoltura e excelente gramática, vestem-se com apuro até nas ocasiões casuais, cumprimentam populares com graciosidade ímpar e nunca, jamais, são pegos em um gesto plebeu, como pagar alguma coisa com cartão de crédito ou chamar um Uber. Quando o palácio treme e essa imagem racha, expondo brigas, preconceitos e mesquinharias, a casa real corre o risco de se tornar muito parecida com as demais — e ela tem de se desdobrar para de alguma forma recuperar o brilho especial, tão vital para sua sobrevivência.

CENÁRIO - Oprah e os duques: perguntas diretas e respostas perturbadoras –Harpo Productions/Joe Pugliese/Getty Images

É nessa encruzilhada que se encontra — de novo — o atribulado Palácio de Buckingham depois de uma entrevista devastadora em que Harry e Meghan, os autoexilados duques de Sussex, falaram abertamente de racismo, repressão, esnobismo e descaso no cotidiano dos imponentes aposentos particulares da rainha Elizabeth e seus herdeiros. “Não sei como eles podem esperar que a gente permaneça em silêncio enquanto a firma se empenha em perpetuar inverdades sobre nós”, disparou Meghan a certa altura, mencionando em claro e bom som o apelido pejorativo — “the firm” — atribuído pelas costas à casa de Windsor.

A muito propalada entrevista exibida em rede nacional no domingo 7, nos Estados Unidos, e na noite seguinte no Reino Unido, foi conduzida pela apresentadora Oprah Winfrey, mestra das perguntas diretas e incisivas (de Michael Jackson, em 1993, quis saber: “Você é virgem?”. Ele saiu pela tangente: “Sou um gentleman”.). Mas Oprah, convidada de honra do casamento dos duques em 2018, nem precisou cutucar muito para Meghan despejar suas mágoas. Começou remontando ao primeiro convite para a entrevista, três meses antes do casamento, ao qual respondeu “não” com funcionários do palácio em volta, fiscalizando suas palavras. “Tinha outras pessoas lá?”, insistiu Oprah. “Para uma pessoa adulta, que levava uma vida independente e se viu em uma situação muito diferente do que as pessoas imaginam, foi realmente liberador ter o direito e o privilégio de agora poder dizer sim”, elaborou a duquesa.

No ponto mais dramático da conversa, Meghan revelou que, de tanta infelicidade por não poder dar um passo sem a anuência dos “ternos cinza”, como são chamados os funcionários de suas altezas, contemplou o suicídio quando estava grávida do filho Archie, de 1 ano e 10 meses. Pediu ajuda psicológica e ela lhe foi recusada, por temor de que a notícia vazasse. Contou também que alguém do palácio, em conversa com Harry sobre o fato de que Archie não receberia o título de príncipe, divagou sobre quão escura seria a pele dele. “O quê?”, indignou-se Oprah. “Eles tinham receio de que ser marrom demais fosse problema?”. “Se você quiser fazer essa suposição, eu acho que ela é bastante segura”, respondeu, elegantemente, a duquesa, que é filha de pai branco e mãe negra.

SEM SOSSEGO – Elizabeth: aos 94 anos, mensagem de paz para acalmar os ânimos dos parentes complicados –Steve Parsons/AFP

Harry chegou ao recanto ao ar livre da mansão escolhida para a filmagem na Califórnia, com confortáveis poltronas de vime e uma mesinha baixa redonda, na segunda parte da entrevista e, basicamente, corroborou a imagem mista de opressão e indiferença com que Meghan pintou a família real. Disse estar decepcionado e magoado com o pai, o príncipe Charles, que não o apoiou e não atende mais suas ligações. “Meu pai e meu irmão estão presos em uma armadilha. Não conseguem escapar. Sinto muita pena”, afirmou Harry, revirando a faca que enterrou no peito dos nobres parentes quando, há um ano, o casal anunciou que iria se afastar das funções de senior royals e, em seguida, se mudou para o Canadá. O príncipe resvalou até por intragáveis questões financeiras, ao comentar: “A família cortou meus rendimentos. Fiquei com o que minha mãe me deixou. Sem isso, não teria conseguido fazer o que fiz. Parece que ela estava adivinhando”. A bem da verdade, desde então os duques firmaram contratos milionários no mundo do entretenimento, entraram no circuito de palestras e estão, ao que tudo indica, muito bem de vida.

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OPOSTOS - Kate (a esq.) para cá, Meghan para lá: ela diz que a cunhada a fez chorar, mas “é boa pessoa” –Max Mumby/Indigo/Getty Images

Harry fez diversas menções a Diana, a mãe que perdeu tragicamente aos 12 anos, vítima de um acidente de carro quando fugia de paparazzi em Paris, em 31 de agosto de 1997. Ao falar da perseguição que os tabloides moveram — e movem até hoje — contra Meghan e de quanto isso a perturbou, disse que sua maior preocupação era “que a história se repetisse”. As comparações entre as duas são inevitáveis, até nas entrevistas. Diana teve a sua em 1995, dois anos antes de morrer, quando, toda de preto, com maquiagem pesada, admitiu para o mundo que eram “três neste casamento” — trazendo Camilla, a então amante de Charles, para o centro do escândalo que estremeceu os alicerces de Buckingham. Meghan cravou a dela com Oprah de vestido Armani preto com uma flor de lótus (símbolo do renascimento) estilizada e uma pulseira de diamantes que pertenceu à sogra. A princesa Diana também penou nas mãos dos onipresentes controladores “ternos cinza” e padeceu com a indiferença da família adotiva, que viria a desatar nela sérios problemas psicológicos. Mas as semelhanças param aí.

Diana mal entrara nos 20 anos quando se casou, perdeu rapidamente o apoio do marido e, vendo-se sozinha, cultivou com habilidade uma relação de gato e rato com os tabloides que trouxe benefícios — e dissabores. Por mais que tenha aprendido a sacudir as paredes do palácio, não era páreo para a solidez da máquina de Buckin­gham. Só se tornou um perigo real quando morreu — e aí era tarde demais. Já Meghan, ao se casar aos 36, era atriz de certa fama, com dinheiro no banco e acostumada a tomar decisões e cuidar da própria vida. Ainda por cima, sua rebelião contra a gaiola dourada dos royals foi plenamente apoiada por Harry. E em vez de buscar compromisso com a imprensa de fofocas, optou por comprar briga: ganhou um processo milionário contra a empresa que edita o Mail on Sunday, por este ter publicado uma carta que enviara ao pai. Nesse embate, a duquesa conta uma vitória pós-entrevista: de tanto desancá-la em seu programa de TV no dia seguinte (“Não acredito em uma palavra do que ela disse”), o apresentador Piers Morgan, seu maior desafeto, causou tamanha polêmica que acabou sendo obrigado a pedir demissão.

EXPOSIÇÃO - Diana na entrevista de 1995: ao falar que havia “três pessoas” no seu casamento, caiu nas graças do público –Tim Graham/Corbis/Getty Images

Por suas credenciais, Meghan, se quisesse, seria uma adversária da família real mais espinhosa do que Diana ou do que a antecessora das duas, Wallis Simpson, duquesa de Windsor — a americana divorciada que, em 1936, levou o rei Eduardo VIII, tio de Elizabeth, a abdicar do trono para se casar, abrindo o primeiro fosso de escândalo na família. É pouco provável, no entanto, que o Palácio de Buckingham, de um lado, e os duques de Sussex, de outro, tenham a intenção de levar seu estranhamento às vias de fato. Pesquisa realizada logo depois da entrevista mostrou que 79% dos britânicos mantinham uma visão positiva sobre a rainha, 54% simpatizavam com Harry e 41%, com Meghan. “Todos eles são figuras muito necessárias em momentos de crise, como este”, diz William Kuhn, biógrafo especializado em realeza. “E pode não parecer, mas, até por sobrevivência, são flexíveis e sabem se adaptar a pressões externas.” De fato, a máquina real é poderosa, duradoura e acostumada a trabalhar na surdina. Dias antes da exibição da fatídica entrevista, os tabloides ressuscitaram, com as usuais inconfidências de “amigos” dos envolvidos, acusações de que Meghan maltratava seus funcionários e levou duas assistentes a se demitir por isso. As vítimas teriam conduzido sua queixa a instâncias superiores, que nada fizeram. Agora, o palácio anunciou que, tendo aprimorado suas normas de tratamento de subalternos, “não tolera bullying e assédio no local de trabalho” e vai reabrir o caso. Em outro comu­nicado, divulgado dois dias depois da entrevista a Oprah, não se furtou a mencionar as revelações mais chocantes. “A família ficou entristecida com a extensão dos problemas enfrentados por Harry e Meghan. As questões levantadas, principalmente de raça, são preocupantes”, diz a nota. Seguidores notaram que o perfil oficial de Charles nas redes sociais passou a postar imagens do príncipe ao lado de líderes negros. “O Reino Unido é uma nação extremamente diversificada. A suspeita de racismo na família real pode causar enorme prejuízo à sua imagem”, diz Craig Prescott, professor de direito constitucional da Universidade Bangor, no País de Gales. O único a tocar no assunto foi o príncipe William. “Essa família não tem nada de racista”, afirmou, avisando que pretende conversar com o irmão.

A PRIMEIRA - Os duques de Windsor: ele abdicou do trono britânico para ficar com a americana divorciada –Keystone-France/Gamma-Rapho/Getty Images

Pegando carona em uma mensagem pré-agendada às nações da Commonwealth, o pedaço do planeta onde reina soberana, Elizabeth exaltou “a amizade e o espírito de união”. Sutil, mas eficiente. Meghan e Harry foram cuidadosos em não incriminar ninguém diretamente — pelo contrário, na história da cor da pele de Archie, garantiram a Oprah, em off feito para ser vazado, que o comentário não partiu nem da rainha, nem do príncipe Philip, que fará 100 anos em junho e acaba de passar por uma cirurgia cardíaca (“Como ela pode dar essa entrevista agora?”, vociferaram os tabloides). Ao “esclarecer” que ela e Kate, a duquesa de Cambridge, rival nos times de fãs que tomaram conta das redes, tiveram um desentendimento antes do casamento e que quem acabou chorando foi ela, e não a cunhada, como se divulgou, Meghan fez questão de dizer que ganhou flores e pedido de desculpas. “Kate é boa pessoa”, afirmou. Harry até tem data marcada para voltar a Londres: pretende ficar “ombro a ombro” com William na inauguração de uma estátua de Diana no dia 1º de julho, quando ela faria 60 anos. Ainda na contabilidade positiva do encontro com Oprah, o casal revelou que espera uma menina no meio do ano, e Harry, em momento doce, disse que o ponto alto do seu dia é pôr Archie na cadeirinha da bicicleta e levá-lo para passear, “coisa que eu nunca tive quando era criança”. “A entrevista revelou rachaduras internas e um choque de culturas, valores e gerações”, diz Robert Lacey, consultor de The Crown, da Netflix. Nada que não possa ser reformulado, reformatado, reinterpretado e exibido com brilho nas próximas temporadas da série. A realidade dos Windsor é, muitas vezes, mais fascinante que a ficção.

Publicado em VEJA de 17 de março de 2021, edição nº 2729

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