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O crescimento das mortes no Brasil por consumo de álcool

Quase 18 meses depois do início da pandemia de Covid-19, em março de 2020, é possível começar a perceber alguns danos concretos de um dos períodos mais dramáticos da nossa história. Sabemos do aumento do sedentarismo, da alimentação irregular, rica em açúcares e gorduras, e da postergação de consultas médicas e exames periódicos. Mas talvez a faceta mais cruel do medo, irritação e cansaço impostos por este momento seja o incremento do consumo de bebidas alcóolicas, de forma indiscriminada. Quem já bebia, passou a beber mais.

Pesquisa realizada pela Vital Strategies, organização independente de saúde pública, a partir do Sistemas de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, confirma em números o que já percebemos em consultas e clínicas. A aferição do Governo Federal tem como base as mortes causadas pelo CID (Classificação Internacional de Doenças) de transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool (como transtornos psicóticos e intoxicações agudas seguidas por suicídios e acidentes, por exemplo). A pesquisa não contempla as mortes por doenças crônicas associadas ao álcool, como pancreatite e cirrose.

O estudo aponta que houve um crescimento de 18,4% no número de mortes no Brasil em decorrência do uso excessivo de bebidas, se comparado com 2019. Segundo os responsáveis pela pesquisa, o crescimento das mortes pode ser identificado, justamente, a partir de abril de 2020, mês seguinte à propagação da doença e, consequentemente, ao isolamento social e às medidas de restrição sanitária.

O aumento posiciona o ano como aquele com mais casos de morte ligadas ao álcool da década que abrange de 2010 a 2020. A informação é ainda mais lamentável porque o Brasil vinha apresentando, ano após ano, tendência de queda ou estabilização nas estatísticas antes da pandemia. O maior crescimento registrado até então havia sido em 2011, quando ocorreu a alta de 3,9%, praticamente seis vezes menor que em 2020.

De acordo com a pesquisa, a região Nordeste apresentou a maior variação percentual nos índices de mortalidade por álcool em 2020: um crescimento de 31%, seguido pela região Sudeste, com 18,2%. Especificamente na cidade de São Paulo, o aumento de mortes por transtornos mentais ou comportamentais causados por uso de álcool chega a impressionantes 156%.

Um dos dados mais preocupantes da pesquisa é o que aponta a maior incidência do uso abusivo de álcool entre pessoas de 18 a 40 anos. Trata-se de uma população economicamente ativa, com capacidade sustentável de compra de álcool, ou seja, com grande potencial de doenças crônicas a médio e longo prazos.

Há pouco usamos o espaço desta coluna para defender a revisão de impostos das bebidas açucaradas, como refrigerantes e sucos em caixinha, como medida preventiva para seu consumo excessivo. A mesma lógica é válida para o cigarro e para as bebidas alcóolicas, muitas das quais contam com inacreditáveis isenções fiscais. Em relatório anterior, a Vital Strategies já indicava o modus operandi da indústria das bebidas alcóolicas na estratégia de interferir diretamente nas políticas públicas que visam a diminuição do consumo de seus produtos, por meio de lobby, influência em agências de governos e dificuldade na obtenção de dados sobre incentivos de impostos.

O entendimento contemporâneo da Medicina contempla tanto a prevenção quanto o tratamento, com igual relevância. Evitar hoje uma epidemia futura de alcoolismo e seus danos sociais, econômicos e sanitários é fundamental e exige a atenção das autoridades e órgãos competentes.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

 

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