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O que Roberto Jefferson contou ao juiz

Antes do almoço, no sábado passado, o presidente do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Roberto Jefferson, foi levado a uma audiência de custódia. Trata-se de um rito processual para garantir ao preso o direito de ver e falar com um juiz até 24 horas depois de sua detenção em flagrante.

Foi preso sob acusação de conspirar para um golpe de Estado, em processo no qual figuram Jair Bolsonaro, dez  deputados federais, três filhos parlamentares do presidente, e empresários financiadores do movimento, cujo objetivo descrito na ação é fechar o Congresso, o Supremo e instaurar uma ditadura, com moldura militar e comandada por Bolsonaro.

Jefferson tem 66 anos, é advogado e está completando meio século de militância política. Se elegeu deputado federal pelo PTB do Rio, em 1982, na esteira da fama em programa de júri simulado na tevê, como advogado de “Mão Branca”, um personagem fictício criado e usado para encobrir assassinatos reais cometidos policiais na Baixada Fluminense. Não esconde a sua tara por armas.

Hábil na retórica, usa táticas teatrais que aprendeu em tribunais, simulados e reais, para transformar a política em espetáculo permanente. Começou como advogado trabalhando em porta de cadeia, e desde que virou político vive a sua segunda experiência atrás das grades.

O juiz Airton Vieira seguiu a rotina da videoconferência, e pediu-lhe para se identificar. O presidente do PTB descreveu-se como advogado que “raramente exerce a profissão”, um tipo “que não possui vícios”, não bebe, não fuma, e acrescentou: “Dou uma por semana quando Deus me ajuda”.

Relacionou todas as suas doenças crônicas, incluídos dois tipos de câncer e listou uma dúzia de remédios diários. Além de velho e doente, se declarou pobre, com saldo de R$ 6 mil em conta bancária e residência em propriedade da mulher, Ana Lúcia, em Levy Gasparian, na serra fluminense — onde guarda uma coleção de motocicletas Harley-Davidson, nove estão na garagem.

O juiz, então, quis saber como havia sido a prisão: “Não houve nenhum problema, não tenho nenhuma reclamação. Só tive que aturar três flamenguistas na viagem, sendo eu botafoguense. Não tenho nada a acrescentar, fui muito bem tratado, não houve nenhum desrespeito.”

Audiência encerrada, seguiu de bom humor para o almoço no presídio de Bangu, endereço atual do antigo líder parlamentar que serviu aos governos Fernando Collor e Lula.

Em 2012, foi condenado a sete anos de cadeia no caso Mensalão, que ele denunciou. Para atestar, usou uma tática de tribunal: confessou ter recebido R$ 14,6 milhões, em valores atualizados, que não considerou corrupção — estima-se que, na realidade, foram R$ 65 milhões.

Na época, Jefferson disse ter chegado a uma conclusão sobre a própria vida: “Sou uma vítima de mim mesmo”. Se mudou de ideia, não se sabe.

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