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Por ‘repúdio à violência’, Tarcísio Meira foi vigiado pela ditadura

Tarcísio Meira, que morreu na quinta-feira, 12, vítima de Covid-19, foi monitorado por muitos anos pelo extinto Serviço Nacional de Informações (SNI) e pela Polícia Federal, depois de criticar  a violência policial durante manifestações contra a ditadura. O nome dele aparece em mais de uma dezena de dossiês.

Em 4 de outubro de 1978, durante o governo do general Ernesto Geisel, a agência do SNI em Porto Alegre produziu um relatório confidencial no qual Tarcísio Meira era o principal personagem. O documento detalhava a atuação da Associação Profissional dos Artistas e Técnicos de Espetáculos do Rio Grande do Sul. Nele, os arapongas informavam que um fato grave ocorrera após a apresentação de uma peça de teatro que tinha Tarcísio Meira e Glória Menezes como protagonistas: o ator leu um manifesto.

Na nota, a Associação dos Artistas denunciava  agressões com “socos e cacetadas” da polícia durante o ato em favor da anistia — violência que refletia “o  clima de insegurança em que vive o povo brasileiro, tolhido do exercício da livre expressão e de um mínimo de liberdade concedido a todo ser humano”.

Na época, os agentes da ditadura enxergavam ameaças comunistas em qualquer tipo de manifestação.  “O tal manifesto de conteúdo político-ideológico contrário ao regime do país, contém ‘repúdio às violências policiais’ ocorridas em 5 de setembro de 78, durante manifestação pública em favor da anistia”, dizia a agência do SNI.

Por conta disso, Tarcísio Meira foi autuado e multado pelo Serviço de Censura e Diversões Públicas, da Superintendência da Polícia Federal em Porto Alegre, “por alteração de programação”.  O ator foi obrigado a prestar depoimento e explicou que a  a manifestação foi contra a ” política do regime militar”, e não contra a figura do presidente da República. “No aspecto pessoal, o ator em questão revelou ter simpatia pelo presidente Ernesto Geisel”, relatou o SNI.

Tarcísio: repúdio à violência policialReprodução/Reprodução

Os dossiês produzido pelo serviço de informações guardam diversas fotografias de Tarcísio Meira, muitas delas pela amizade e por trabalhos ao lado do ator Mário Lago, que era um marxista declarado. Em uma das imagens que estão no arquivo do SNI aparecem Tarcísio, Mário e Glória. Atrás da foto está escrito “Cavalo de Aço (TV Globo)”, uma referência à novela de 1973, na qual os três atores atuaram juntos.

Tarcísio foi monitorado pelos militares até no início do governo de José Sarney. Em 1986, já durante o governo Sarney, um  documento encontrado nos arquivos da inteligência do governo federal trata sobre eleições em São Paulo. Um dos  trechos enumera prováveis candidatos à Constituinte. Tarcísio aparece na lista como opção do PL.

Em 1991, o ator foi protagonista de uma novela chamada “Araponga”, na qual interpretava um detetive que trabalhava para a Polícia Federal, que tinha prestado serviços à ditadura militar, e que queria reativar o SNI.

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