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13 de maio marcado por lutas e comemorações

Nesta quinta-feira, dia 13 de maio, importantes acontecimentos trazem o foco para a reflexão sobre a necessidade de seguirmos constantemente lutando contra o racismo estrutural no Brasil, e outros preconceitos. Vale destacar que o mês de maio é marcado pelo Dia do Trabalhador, pelo Dia Internacional Contra a Homofobia e o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, pautas que se tornam imprescindíveis em um momento de tamanho retrocesso político e civilizatório, que infelizmente atravessamos.

A data de hoje também nos convida a falar sobre a Lei Áurea, pois mesmo após transcorridos exatos 133 anos de sua promulgação pela Princesa Isabel, fica evidente que a assinatura do documento não garantiu de fato a completa abolição. Nem mesmo com o fim do Império e a chegada à República, os novos governantes conseguiram consolidar efetivamente a cidadania e garantir igualdade política e social para os ex-escravizados e seus descendentes. Porém, alguns ilustres aniversariantes deste mês nos mostram como a mobilização da luta por direitos tem trazido cada vez mais força e esperança na superação desse quatro.

Esta semana, conversando com o amigo Pedro Rajão, produtor cultural, pesquisador da musicalidade africana e responsável pelos projetos Leão Etíope do Méier e Negro Muro, ficamos espantados com a extensa lista de personalidades e datas importantes, para o movimento negro, que são celebradas em maio. Esta semana, Cazé e Rajão estão pintando Antonieta de Barros na porta do Colégio Municipal Antônio Jobim, na Rua Adriano no Méier.

Entre as data lembradas por nós, destacamos o nascimento de Milton Santos, Nei Lopes, Alberto da Costa e Silva, Malcolm X, Lima Barreto, Ruth de Souza, Haroldo Costa, entre tantos outros. Assim como os 71 anos da criação do Conselho Nacional de Mulheres Negras do Rio de Janeiro e os 10 anos de falecimento de Abdias do Nascimento, idealizador do Teatro Experimental do Negro, em 1944.

<span class="hidden">–</span>Negro Muro/Arquivo pessoal/Divulgação

Em meio a tantos aniversários e datas importantes, falemos um pouco mais sobre o Méier, Lima Barreto e as relações suburbanas. Temos que deixar claro que a história do Méier começa muito antes de 1889, ano em que a sua estação de trem é inaugurada.

Desde o período colonial, por volta do século XVIII, já havia grandes fazendas ocupando as terras situadas entre os limites das freguesias de São Thiago de Inhaúma e Nossa Senhora da Conceição do Engenho Novo.

Originalmente a maior parte dessa região era ocupada por taperas, aldeamentos tamoios. Parte dos primeiros caminhos de ligação da região do grande Méier eram antigos peabirus indígenas. O terreno era cortado por rios, entre eles o rio Jacaré, palavra que deriva do Tupi-Guarani “yacaré”, e significa torto, sinuoso, ou seja, que corta a região serpenteando os obstáculos físicos.

Logo depois da guerra para expulsar os franceses e fundar a cidade colonial portuguesa, em 1565, as ordens religiosas passaram a ganhar grandes faixas de terras para administrar, catequizar os indígenas e proteger o território. Foi durante a ocupação jesuítica, em 1720, que uma capela dedicada a São Miguel e Nossa Senhora da Conceição foi edificada ao lado da sede de uma fazenda em uma grande área produtora de cana de açúcar. Futuramente essas terras seriam conhecidas como Engenho Novo, para se diferenciar do Engenho Velho de São Francisco Xavier, na Tijuca. No entanto, a partir de 1759, a Companhia de Jesus, que ocupa a região, foi expulsa do Brasil, pelo secretário de estado português, o Marques de Pombal. Desde então, grande parte das terras passou a ser remanejada ou vendida, principalmente após a Lei de Terras de 1850.

A partir do Segundo Reinado (1840-1889), a região começou a se desenvolver cada vez mais. Com a abertura da Estrada de Ferro Pedro II, surge a primeira parada de trem, inaugurada em 29 de março de 1858, na região conhecida na época como Venda Velha, atual estação do Engenho Novo, que foi crescendo e ganhando destaque. Essa estação teve uma importância significativa para o processo de integração e desenvolvimento local, principalmente por se conectar, a partir de 1873, com Andaraí e Vila Isabel através da rua Barão do Bom Retiro.

O pioneiro projeto de urbanização, realizado pela Companhia Arquitetônica de Vila Isabel, também foi responsável pela montagem da primeira linha de bondes da Companhia Ferro-Carril de Vila Isabel.

Nesse contexto, o comendador Miguel João Meyer começou a ganhar as concessões de terras que passariam, em 1884, para seu herdeiro Augusto Duque Estrada Meyer. A família portuguesa de origem alemã logo se tornaria muito influente e seus membros passariam a ser conhecidos como os “camaristas Meyer”, por supostamente terem acesso às câmaras do Palácio Imperial.

A abertura, em 1873, da maior oficina de trens da América Latina, no Engenho de Dentro, trouxe ainda mais investimento e infraestrutura para a região. Logo, em 13 de maio de 1889, também seria inaugurada a parada de passageiros do bairro do Méier. Nos anos seguintes, presenciamos muitas obras, aberturas de ruas e jardins, casas de comércio e residências que se edificaram e deram relevância a essa promissora área da cidade.

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A partir de 1937, tanto em função dos investimentos do presidente Vargas na modernização e eletrificação dos trens e outros transportes, quanto no favorecimento da expansão de investimentos industriais para a Zona Norte, a região foi crescendo ainda mais até a década de 1950.

Jardim do Méier, década de 1950,Arquivo Nacional/Divulgação

Um ilustre morador da região, que em 2017 foi homenageado pela Feira Literária de Paraty (Flip), o maior evento literário do país, vivenciou de perto o início de todo esse crescimento. Para falar com mais propriedade sobre Lima Barreto e o Méier convidei a amiga, professora e Doutora em Literatura Brasileira, Elaine Brito Souza.

Por coincidência Elaine, que é moradora do Méier é autora da tese “Lima Barreto e a memorialística: sujeito e autobiografia em crise”, também faz aniversário hoje, dia 13. Parabéns para nossa amiga especialista que ainda nos brindou com o belo texto abaixo, no qual analisa a relação entre Lima Barreto e o Méier, passando pela questão do negro e da escravidão.

“Estamos em maio, o mês das flores, o mês sagrado pela poesia.” Assim Lima Barreto começa a crônica de 1911, anos depois da assinatura da Lei Áurea. A Abolição foi decretada no dia em que o futuro escritor completara sete anos de idade – 13 de maio de 1888. Junto com o pai, foi ao Paço Imperial para ver a “canetada” da princesa e à missa no Campo de São Cristóvão.

O menino nunca tinha visto tanta alegria na vida. O sentimento de liberdade que tomou conta da multidão contrasta com a realidade do negro recém-liberto: “Mas como ainda estamos longe de ser livres!”. Coisas do destino. Logo ele, nascido sob a promessa de liberdade, foi o escritor que trouxe a questão racial para a cena literária. E pagou por isso. Muito antes de falarmos em racismo estrutural, Lima nos mostra, por meio de seus personagens, as barreiras sociais e as regras invisíveis do preconceito. Escritor de talento, sem papas na língua, crítico do oportunismo intelectual e do nacionalismo flácido, acabou rejeitado pelos círculos literários de prestígio, como a Academia Brasileira de Letras.

Colorização da última foto de Lima BarretoLuis Felipe Capellão/Arquivo pessoal

Em 1889, um ano depois do fim da escravidão, a Estrada de Ferro Central do Brasil inaugura a estação do Méier logo em um 13 de maio, data que se tornaria marco oficial do bairro. Para Lima Barreto, morador de Todos os Santos, onde escreveu boa parte de sua obra, a estação de trem é o coração da vida suburbana, por concentrar o comércio, o entretenimento e a agitação tipicamente urbana. Em crônica de 1921, Lima fala do Méier como se fosse a capital do subúrbio: “Tem confeitarias decentes, botequins frequentados; tem padarias que fabricam pães, estimados e procurados’. Destaca ainda que o bairro tinha dois cinemas e um circo-teatro – ‘tosco, mas tem”.

Para muitos, a ideia de capitalidade não faz sentido, pois o subúrbio não é um, mas vários. Não por acaso, Lima emprega a palavra invariavelmente no plural – subúrbios. Discussões à parte, o fato é que Lima não esconde o entusiasmo. Para ele, “o Méier é o orgulho dos subúrbios e dos suburbanos”. O que diria sobre o primeiro shopping do Brasil, inaugurado em 1963 na rua Dias da Cruz?

De antiga fazenda a bairro engarrafado, o Méier também foi abrigo. Escravos alforriados formaram quilombos no morro que faz divisa com a Água Santa. A Serra dos Pretos Forros, área de preservação ambiental desde 2000, nos fala de um Brasil que Lima conhece muito bem. Chamava carinhosamente sua casa na rua Major Mascarenhas de “Vila Quilombo”, para, segundo ele, provocar os habitantes de Copacabana.

Bonde Méier, 1950Divulgação/Arquivo pessoal

Ponto central ou de passagem, o Méier é lugar de encontro e segue firme, claro que tem seus problemas, mas nada que diminua a sua relevância.

Neste dia tão especial, desejamos vida longa a esse senhor de mais de 132 anos que se integra aos bairros do entorno, ajudando a tecer redes de sociabilidades, a forja identidades e paixões, formando uma grande região composta por Engenho Novo, Abolição, Riachuelo, Água Santa, Engenho de Dentro, Jacaré, Lins de Vasconcelos, Piedade, Pilares, Todos os Santos, São Francisco Xavier, Cachambi, Sampaio, Jacarezinho, Maria da Graça, Encantado e Rocha.

Para seguir homenageando o bairro do Méier, teremos ainda duas ótimas lives, disponíveis pelo YouTube. A primeira organizada pela AMME, Associação de Moradores do Méier, que completa 40 anos, e outra organizada pelo coletivo Engenhos de Histórias.
Não percam!

 

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