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As lições de Mariana Lima

Artistas são seres especiais. E digo isso com conhecimento de causa, já que venho de uma família farta de profissionais da arte, há muitas gerações. Atores, autores e diretores tem a capacidade de captar o espírito do nosso tempo e traduzi-lo em música, novela, série, filme ou peças de teatro. Através da sua arte, colocam um espelho à nossa frente para que possamos enxergar a nós mesmos no reflexo. É uma profissão de fé, de entrega e de extrema generosidade.

Tudo isso me veio à cabeça lendo a linda entrevista que a repórter Maria Fortuna fez com a atriz Mariana Lima para o jornal O Globo, por conta da série “Onde está meu coração”, que estreia nesta semana. A atriz dará vida à mãe de uma família de classe média alta, cuja filha se torna dependente de crack. A perspectiva é interessante, porque o crack ainda está muito associado a usuários de classe baixa. No entanto, isso é uma falácia. Quem trabalha na assistência a usuários de drogas sabe que a realidade é outra, há um bom tempo. Em 2014, dei entrevista aqui para a Veja Rio alertando que o crack estava se enfronhando – e destruindo – famílias de classe média e média alta: https://vejario.abril.com.br/cidade/cariocas-classe-media-crack-drogas/

Como resume a atriz na entrevista, drogas são “um assunto de saúde pública, que já devia ser nosso. A nossa hipocrisia com as drogas faz uma hierarquia: álcool pode, maconha pode, cocaína, “ah, conheço uma pessoa”, mas crack? É como se quebrasse um paradigma social”. De acordo com o 3º Levantamento Nacional Sobre Uso de Drogas pela População Brasileira, coordenado em 2015 pela Fiocruz em parceria com o IBGE, Inca e a Universidade de Princeton (EUA), o equivalente a 1,4 milhão de pessoas entre 12 e 65 anos relataram ter feito uso de crack e similares ao menos uma vez na vida. Este número traduz um universo muito maior do que os dependentes largados nas cracolândias das grandes cidades que aparecem, de quando em quando, nos telejornais.

Mariana reconhece que experimentou diferentes drogas, “mas nunca fui adicta de nada (…) É um perigo que enfrentei, que todos enfrentam com qualquer droga. Inclusive o álcool, aceito, liberado e perigoso como o crack”. O raciocínio da atriz é irretocável sob dois aspectos.  O primeiro é por nunca ter se tornado adicta de nada. Como Mariana bem alerta, “é um perigo que todos enfrentam”. Muitos não tem a mesma sorte da atriz e não conseguem pegar o caminho de volta. O que era uma experiência se converte em dependência, comprometendo o indivíduo em todo – ou quase todo – o tecido social que o cerca: no trabalho, na família, na vida amorosa e na financeira.

O segundo ponto interessante destacado por Mariana é a tolerância que a sociedade assume com o álcool em oposição à outras drogas. Ao contrário do que o marketing de bebidas gosta de apregoar, o álcool não é mais inofensivo que outras drogas. Na verdade, pelo fácil acesso para compra e aceitação social, ele é muito mais danoso. Rotineiramente associada ao tráfico de drogas, a violência e seus desdobramentos também permeiam o usuário de álcool, em casos de suicídio e condutas criminosas, como abuso infantil, agressões, homicídio e violência doméstica.

Às vésperas de fazer 50 anos, Mariana Lima relata a longa luta travada contra a depressão. E mais uma vez, a atriz é generosa em compartilhar sua experiência – seguramente igual a de muitos leitores que ainda resistem em buscar ajuda médica. “Tenho um pé grande na depressão, na melancolia. É de família. A vida inteira tive que trabalhar minha tendência à depressão”, explicou. O quadro se agravou em alguns momentos de sua vida pessoal. Em um deles, recorreu a um psiquiatra e a remédios. “Não vivo sem eles, estão no meu altar junto com santos e orixás”, afirma, ajudando a desmistificar os preconceitos que cercam os tratamentos em saúde mental.

Campanhas institucionais contra o consumo de drogas fazem um enorme esforço para estabelecer o canal de comunicação honesto que a atriz Mariana Lima e a repórter Maria Fortuna conseguiram na entrevista. Elas contribuem para aumentar a informação e conscientização dos danos causados pelas drogas, de forma até mais eficiente que as referidas campanhas oficiais. Obrigada às duas! Que as palavras da matéria e a série “Onde está o meu coração” ecoem em muito mais gente!

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

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