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Bola pra frente, como lembrou Drummond

Já no fim da tarde as vuvuzelas cariocas prenunciam o título. Suado. Na última volta do ponteiro, diriam os antigos locutores. Como se as doses de apreensão, ironia, polêmica buscassem compensar o vazio dos estádios relegados aos coros artificiais. Foi o campeonato dos DJs.

Noves fora, deu a lógica na taça merecida. Não sem antes cambalear sob as brumas do imponderável que habitam o futebol. Não sem a companhia das conspirações contra a arbitragem às voltas com o sopro lá de cima. Foi o campeonato do VAR.

A bronca – ou o choro, debocham os vitoriosos – faz parte do show. Mesmo aqui e ali tecnicamente fundamentada, expressa um velho esporte nacional: esnobar a norma estabelecida, presa recorrente dos jeitinhos e pessoalismos. A modalidade mantém a forma: carteiradas, furas-fila, distorções da imunidade parlamentar, esculachos a instituições democráticas. O árbitro de vídeo não ficaria de fora. É a Geni da vez no mundo da bola.

Decorrência natural do avanço tecnológico, o processo precisa amadurecer. Concentrar-se no propósito de banir o erro crasso, decisivo. Ficar mais ligeiro e menos intervencionista, discípulo da pedagogia popular: juiz bom, a gente nem nota. A máxima não envelhece. Aplica-se à turma do videoteipe.

Cedo ou tarde o VAR chegará lá. Passará quase despercebido. Nem por isso as polêmicas e provocações esfriarão. Encontram no vasto território futebolístico um inesgotável fertilizante.

Talvez a maior glória da reta final do Brasileiro tenha sido lubrificar as prosas cidade afora. Reviravoltas à porta do paraíso e do inferno inflamaram resenhas no prédio, no trabalho, nas mídias sociais e, infelizmente, no desatino das aglomerações. O êxtase do título as justifica.

Até a exaltação do técnico vencedor à nova morada despertou reações incandescentes. Despeito, ciúmes, apoio, gozação. Provavelmente Ceni não esperava tanto burburinho ao reconhecer a distinção popular do Flamengo. Tampouco consideraria uma gafe proclamar, no frigir da conquista, o amanhecer festivo num Rio dividido entre a alegria rubro-negra e os lamentos em preto e branco. Jogava pra galera recados verdadeiros, revigorantes.

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O fim do campeonato atípico borrifa nas esquinas uma polarização jamais vista. Entre a comemoração orgulhosa da dupla Fla-Flu, embarcada na Libertadores, e a tristeza da queda de Vasco e Botafogo numa só tacada. Um tristeza coletiva, da cidade e do país, acima das rivalidades jocosas.

O contraste alimenta intermináveis memes, como tem de ser. Abastece também incontáveis análises sobre as lambanças gerenciais que culminaram nos rebaixamentos e as receitas da volta por cima. Antes de mais nada, é preciso cair a ficha de que a vida continua, com seus cinzas, seus azuis, com seus solavancos e afagos, suas misérias e belezas, seus desertos e quintais, seus silêncios e suas músicas, suas viradas de vento, seus recomeços.

Assim lembrou Drummond na célebre crônica “Perder, ganhar, viver”, publicada no Jornal do Brasil há quase quatro décadas (7/7/1982). Acalentava os corações pisoteados com a derrocada do Brasil de Zico, Sócrates e Falcão, fadado ao caneco de 82. Sem perder a ternura, o poeta acertou o ângulo:

“E chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória, estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo […] A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos”.

É isso aí. Bola pra frente, porque o ano, a pandemia, o Brasil, o Rio, o futebol continuam.

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Alexandre Carauta é doutor em Comunicação, mestre em Gestão Empresarial, especialista em Administração Esportiva, formado também em Educação Física.

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