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Caso Henry: o que se passa na cabeça da mãe do menino?

O caso do menino Henry Borel, de apenas 4 anos, deixou toda a sociedade brasileira perplexa nas últimas semanas. É assombroso pensar na hipótese defendida pela polícia: um padrasto que promove repetidas sessões de torturas e maus tratos – o laudo da reconstituição da morte do menino apontou nada menos do que 23 lesões no corpo de Henry causadas por “ação violenta”.

No entanto, em todo esse horror, é ainda mais chocante a possibilidade de que a mãe do menino, Monique Medeiros, soubesse de todo o sofrimento a que o filho estava subjugado e, ainda assim, deliberadamente não tivesse tomado uma atitude enérgica. A troca de mensagens de Monique com a babá atestam a consciência – e o medo – da mãe a respeito das violências contra o filho. Em mensagens com a prima, Monique afirma que o filho “vomitava e tremia” quando via seu padrasto algoz. Ainda de acordo com a perícia, a possibilidade de um acidente doméstico foi descartada. Por tudo isso, a pergunta que todo o Brasil está se fazendo neste momento é por que a mãe do menino não o protegeu. Afinal, onde foi parar o amor de mãe de Monique?

A investigação das autoridades já possui peças que possibilitam montar um quebra-cabeças perturbador. A vaidade exacerbada da mãe de Henry permite supor um traço significativo do seu comportamento. Apenas um dia após o enterro do filho, Monique foi ao salão de beleza fazer pé, mão e tratar dos cabelos. Antes de depor, ela mandou selfies aos advogados para que eles a ajudassem a escolher a roupa que ela iria se apresentar à polícia. Já dentro da delegacia, Monique fez uma nova foto de si mesma, com um meio sorriso no rosto. Seu comportamento é ainda mais destoante num momento em que centenas de milhares de famílias brasileiras estão enlutadas pela morte de seus parentes por um vírus tão cruel quanto imprevisível.  

A postura de Monique Medeiros evidencia uma desconexão de sua própria realidade: a de ser suspeita de um crime bárbaro. As demonstrações recorrentes da sua vaidade – inclusive nos momentos mais inapropriados – permitem considerar um transtorno de personalidade sem sinais de comoção ou empatia, ausente de vínculos verdadeiros.

O narcisismo da mãe de Henry é potencializado pelas redes sociais. Para pessoas que dão grande valor à autoimagem, é uma armadilha perigosa. Infelizmente, Monique não está sozinha neste lodaçal contemporâneo, que trai o “ser” pelo “parecer”. Em maior ou menor grau, muita gente também se perde nas falsas ilusões dos posts. Uma das principais características do universo das redes é narrar a vida sem dores, apenas as alegrias importam. Curiosamente, foi ao Instagram que Monique e o padrasto recorreram para criar uma página dedicada à memória do menino, pouco depois de sua morte. Tentavam expressar no ambiente virtual a dor que parecem não ter sido capazes de demonstrar na vida real.  

Numa espécie de espelhamento de Medeia, a personagem da tragédia grega que mata os próprios filhos para se vingar do marido, Monique parece ter consentido com a morte do próprio filho ao silenciar e se omitir diante da dor do menino.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

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