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Da Gávea para o mundo – e outras paradas

O novo disco do Pedrinho Miranda me inspirou a escrever esse texto. Confesso que andei sem nenhuma vontade de escrever nos últimos quinze dias. Tantas mortes, e pior, tanta insensibilidade. Parece que a morte se tornou banal para muita gente. Mas espantei a tristeza quando ouvi o disco novo, primeiro trabalho autoral do Pedrinho e que traz de volta lembranças de um Rio de Janeiro que tinha tanto a nos oferecer. E aí me dei conta e me encanto quando vejo os caminhos que jovens artistas estão encontrando para dar vazão à sua arte. Pedrinho Miranda e Aiace são dois deles, mas eu sei que tem uma legião espalhada por esse Brasil.

Pedrinho juntou no disco novo suas múltiplas experiências: o Samba e o Forró da Gávea e o Choro na Praça.Pepe Schettino/Divulgação

Pedrinho é um legítimo representante da música carioca, especialmente o samba, mas não só. No disco novo “Da Gávea Para o Mundo”, juntou suas múltiplas experiências nos projetos que ele tinha na pequena Gávea, bairro da Zona Sul do Rio, que vinha despontando como epicentro da boa música antes da pandemia da Covid-19 chegar. E reuniu num só disco, samba, choro, xote e forró, com uma gama de parceiros de primeira grandeza, e Luís Filipe de Lima assinando com ele a direção artística e também a produção musical.

Além do timaço de instrumentistas, claro que não poderiam faltar os companheiros inseparáveis do Samba da Gávea: João Cavalcanti divide com ele a divertida “Pó Pará“; Alfredo Del-Penho, faz poesia em “Desengaiola”; e Moyseis Marques, filosofa em “Meu Pecado é Sorrir”.

De outras paradas, vem o paulista Jean Garfunkel na comovente valsa “Remanso de Avô”, que conta com o piano, gravado desde Portugal, de Carlos Fuchs. Ampliando ainda mais horizontes, o novo parceiro Ricardinho Matos, lá de Jericoacoara, Ceará, que divide com ele os vocais em “De Mirada em Mirada”, um samba que vira xote, ou vice-versa.

Vontade de Sair” – que poderia ser o hino desse momento pandêmico, como escreveu Joyce Moreno, outra parceira –  foi criada com o mestre Cristóvão Bastos, que encabeça o time de grandes instrumentistas que o disco traz. “Fazer nosso choro na praça, dançar um forró, aquele pagode na Tata, ou sair só pra te ver”, diz um trecho da música, que tem o sax primoroso de Eduardo Neves, lembrando a gente de como tudo isso era bom!

A música que dá nome ao disco, “Da Gávea Para o Mundo”, é uma composição de Luís Filipe de Lima e Joyce Moreno, que fala com humor como era o Samba da Gávea e o Forró, dois projetos interrompidos. “Camboinhas” é um forró delicioso, daqueles de arrastar o pé, incrivelmente executada pelos integrantes do Forró da Gávea, Bebê Kramer (acordeom), Rafael dos Anjos (violão), Pedro Aune (baixo), Durval Pereira (zabumba, pandeiro, triângulo, ganzá, reco-reco e coco).

“Foi uma loucura fazer esse disco com todas as restrições, os protocolos que a gente teve que seguir. Não pudemos juntar a turma toda no estúdio, tivemos que fazer as gravações escalonadas, cada um de uma vez. Mas que bom que a gente tem a arte, a música, que acaba sendo uma válvula de escape. E o disco acabou juntando um pouco do nosso trabalho pré-pandemia e durante e deu nisso aí”, conta Pedrinho.

A verdade é que o “Da Gávea Para o Mundo”, com suas dez faixas, é todo uma delícia e dá uma saudade danada dos tempos em que a gente podia circular e se amontoar nas rodas de samba e nas pistas de forró, além outras aglomerações musicais que só o Rio de Janeiro sabe produzir.

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Amarelocura

Seguindo do Rio para Salvador, convido a visitar o trabalho da jovem cantora Aiace. Ela lançou recentemente o single “Amarelocura“, produzido por Paulo Mutti. Integrando a nova e potente geração de cantoras baianas, nesse trabalho Aiace reflete sobre acreditar, ressignificar, ter fé e coragem em tempos adversos.

“Amarelocura é, para mim, um sopro de esperança em meio ao caos”.Vini Ribeiro/Divulgação

“Nesse projeto, originalmente composto por Lucas Pitangueira, canto sobre o amor como um instrumento ‘marginal’ de transformação. É uma mensagem sobre acreditar, ter fé. ‘Amarelocura’ é, para mim, um sopro de esperança em meio ao caos e acho importante perceber que surge desse olhar atento de quem lê nos muros, mundo afora, muitos dos conselhos que as artes urbanas nos emprestam”, diz a cantora.

É que o nome da música surgiu das pichações em muros de Salvador com a tag “Amarelocura”, expressão de múltiplas leituras que se transformou em uma brincadeira na cidade – amarelo cura, amar é “locura”, amar elo cura –, e que acabam atraindo tanto quem lê quem escuta.

O single estará no novo disco com previsão de lançamento em novembro. Até lá, outros serão lançados, todos parte desse segundo álbum da cantora, ainda sem nome. Por conta das restrições de saúde e de isolamento social, o disco está sendo produzido e gravado em casa e à distância. Ayace lá de Salvador, e Paulo Mutti daqui do Rio de Janeiro, onde vive.

“Temos gravado tudo das nossas casas na tentativa de nos reinventarmos e continuarmos vivos e produzindo música nesses novos tempos pandêmicos e ainda mais desafiadores para os artistas independentes. É muito difícil continuar existindo dentro desse mercado musical em que tudo é pra ontem e a gente tem se virar nos 30 para produzir em meio à escassez”, diz Aiace.

Assim, com todas as adaptações possíveis, muitos protocolos e um esforço gigante dos artistas, temos a sorte de poder usufruir desses trabalhos. São eles que têm tornado possível a nossa sobrevivência psíquica, emocional.

Rita Fernandes é jornalista, escritora, pesquisadora de cultura e carnaval.

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