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Dona Ivone Lara: pérola rara no compor e no cantar

Cada vez tenho pensado mais na importância de estudar e divulgar, buscar conhecer e se reconhecer melhor em nossa história e cultura de origem popular. Nesta semana, a necessidade de fazer essa imersão cultural se torna evidente.

Desde o último dia 11 de abril, quando uma das escolas de samba mais significativas do país completou seus 98 anos, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela, o mundo musical está em festa, especialmente nos subúrbios da Grande Madureira. Ainda mais pelo fato de ontem, dia 13 de abril, também ter sido um dia mais que especial devido ao aniversário da eterna diva Yvonne Lara da Costa, nossa Dona Ivone Lara.

Acredito que os deuses da música e da alegria devem ter se unido para nos presentear, no mesmo mês, com o nascimento de tantas estrelas, a exemplo da Portela, Dona Ivone Lara e de Alfredo da Rocha Vianna Filho, o mestre Pixinguinha.

Dona Ivone Lara: seu aniversário também é merecidamente reconhecido como o Dia da Mulher SambistaInternet/Divulgação

Foi durante um complicado contexto mundial, no início da década de 1920, pouco após o fim da Primeira Guerra, ainda em meio ao grande impacto de uma pandemia de Gripe Espanhola e do surgimento do Nazifascismo. Enquanto o Brasil vivia uma crise de contestação de sua República Oligárquica e as vésperas do centenário de independência, nascia Yvonne Lara da Costa.

Sua própria vida se tornou um exemplo de superação das adversidades. Foi sempre retratada por pessoas próximas como uma mulher forte e afetuosa, muito profissional e extremamente preocupada com a família. Tal como nos conta a cantora Dorina: “Eu vi na D. Ivone a alegria de estar viva e fazendo o que gosta. Se preocupava com os filhos, marido partiu cedo, o outro filho sofreu um acidente e ficou em seus cuidados, acredito que foi mais por isso que se aposentou.” Dorina chegou a dizer em uma entrevista para o Museu do Samba: “Dona Ivone transbordava bondade, coração de mulher cheia de vida e consciência.”

Para falar um pouco mais sobre essa personalidade singular da nossa história convidamos a amiga, enfermeira e compositora Marcia Lopes. Marcia nos conta que certa vez, assistindo uma entrevista de Dona Ivone a mesma foi perguntada sobre como se sentia em relação ao machismo no samba, a grande artista lançou aquele olhar especial e respondeu: “Nem me preocupo com isto”.

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Marcia segue afirmando: “Analisando o machismo estrutural atual a partir dos dias de hoje, dentro do século XXI, consigo entender o posicionamento da compositora em não estar nem aí, não quer dizer que ela não tomaria a dianteira, pois sempre fez o que quis mesmo quando não podia. Era uma mulher que compreendia a vida e tinha sabedoria, os machistas não tiveram vida fácil com ela, era a dona do tabuleiro, por isto era dama. Era direta nas suas argumentações e tinha postura e muita decisão, simplesmente falava na hora certa e isto é fantástico. Como queria ter sido amiga de Dona Ivone Lara! Ela tinha a sua verdade, assim como eu tenho a minha. Não é à toa que se graduou em duas profissões eminentemente femininas, Enfermagem e Serviço Social, que lhe deram um conhecimento, filosófico, da alma humana. Sempre foi muito estudiosa, e isto lhe forneceu referencial teórico que levou para a vida e beneficiou quem estava sob os seus cuidados técnicos e científicos tão bem elaborados. Foi percursora ao instaurar a terapia através do canto, na época em que militava de forma conjunta com a doutora Nise da Silveira, por uma prática na saúde mental humanizada. Trouxe para a arte todos estes pressupostos, pois cuidou de todos que passaram no seu caminho, com benevolência, compaixão e entrega.”

Em seu depoimento, Marcia Lopes demonstrou a forte identificação profissional, musical e feminina com Ivone Lara. Fato que merece destaque em função de sabermos que nossa história ainda é muito heteronormativa, mesmo no campo musical. Temos conhecimento da íntima relação entre o Choro, Jongo e o Samba, algo que também marcou a vida da nossa homenageada. Infelizmente ainda referenciamos pouco nomes como Chiquinha Gonzaga, Clementina de Jesus, Vovó Maria Joana, Tia Maria do Jongo, Dona Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra, entre outras.

Sobre este ponto Marcia nos diz: “Eu não sei qual era o time de Dona Ivone, mas nascemos no mesmo bairro Botafogo, ambas enfermeiras com paixões em comum, a família e o Samba, além de sermos compositoras. Por este motivo esta é uma digna narrativa de amor. Ivone Lara muito obrigada por sua existência que produziu grandes significados no país e em uma nação de Mulheres que reverenciam a sua história!  Pra mim forte inspiração na vida. Se pudesse lhe oferecer uma canção certamente seria o seu próprio “Bodas de Ouro”, em parceria com Paulo César Pinheiro, que traduz este casamento que é a essência do Samba.”

Dona Ivone Lara e Tia Maria do Jongo: grandes inspirações femininas no campo da músicaJongo da Serrinha/Divulgação

A história de Dona Ivone Lara é fortemente influenciada pela sua vivência suburbana, desde que aos 6 anos de idade ficou órfão de pai e mãe e passou a estudar, em regime de internato no Colégio Orsina da Fonseca, na Tijuca. Foi nesta escola que teve aula de música com a pianista Lucília Villa-Lobos, esposa do maestro Heitor Villa-Lobos. Aos 17 anos passa a morar em Inhaúma, na casa do tio materno, lugar onde aprendeu a tocar cavaquinho com o Tio Dionísio Bento da Silva, conhecido por ser um famoso chorão que organizava animadas rodas de Choro, não só em seu quintal como em toda região dos subúrbios contando com a participação de nomes como Pixinguinha e Jacob do Bandolim.

Foi através da sua relação familiar suburbana que Ivone se aproximou do mundo do carnaval. O primo, Mestre Fuleiro, foi um dos fundadores do Império Serrano, em 1947, uma dissidência da Escola de Samba Prazer da Serrinha. Por coincidência da vida, o filho do presidente da Prazer da Serrinha, Oscar, se tornaria marido de Ivone Lara. A partir de Madureira ela conquistaria o mundo com suas composições, parcerias de sucesso e apresentações memoráveis em todo Brasil, nos Estados Unidos e em diferentes países da América do Sul, África e Europa.

Seu reconhecimento permanece fortemente vivo as vésperas de seu centenário, entre muitas das homenagens que recebeu em vida destacamos o desfile do Império Serrano, de 2012, onde foi tema central do enredo. Seu aniversário também passou a ser merecidamente reconhecido como Dia da Mulher Sambista. Salve Dona Ivone Lara!

Este texto foi escrito por Rafael Mattoso em parceria com Marcia Lopes sambista, enfermeira obstetra e compositora.

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