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Fenômeno dos anos 80, o conga retorna às ruas do Rio – e de cara nova

Raquel Sodré: adepta até com looks mais formais –Léo Lemos/Divulgação

A moda dos anos 80 ficou marcada pelo estilo nada discreto. Roupas de cores fluorescentes, trajes bordados com paetês e muito collant, ombreira e manga bufante ganharam força no embalo de ídolos como Madonna, Cyndi Lauper e Freddie Mercury. Saltos altos ornavam bem com meias cintilantes e polainas coloridas. Em meio a todo esse brilho, um calçado básico destacava-se nos pés da juventude estudantil — o conga. Como dita o ciclo da moda, ele veio com tudo e sumiu com a mesma intensidade, até, quem diria, ser reabilitado nestes tempos pandêmicos, devidamente relido sob a óptica contemporânea.

Marcas como Arezzo, Anacapri, Mr. Cat e Schutz aderiram — e não se queixam. “Vendemos mais de 5 000 pares em vinte dias. Foi uma surpresa”, diz Joana Bittencourt, responsável pelo núcleo de acessórios da Reserva, que lançou sua linha para o público feminino no fim de 2020. Na versão da grife, o modelito de curvas arredondadas, com o bico de borracha, vem em preto, branco, vermelho e rosa-bebê.

O retorno do conga se dá em um momento no qual a humanidade, mais reflexiva diante do mundo sacudido pelo novo coronavírus, valoriza qualidades como conforto e praticidade — que vêm pautando a indústria da moda. Enquanto o modelo basicão dos anos 80 ascende, a venda de saltos altos emagreceu 70% no segundo trimestre de 2020, segundo pesquisa da consultoria americana NPD Group.

Também a flexibilização do dress code para o trabalho, à base de muito home office e reuniões no Zoom, alimentou a procura por itens mais casuais — ela cresceu 36%. “Além do conforto, o conga casa bem com a descontração do carioca, que aprecia tecidos mais leves e menos quentes”, avalia a consultora de moda Carla Lemos, 35 anos, criadora do blog Modices e, ela também, adepta do tênis para todo tipo de ocasião.

Os modelos da loja Tarsila (acima) e seu primo francês, o Bensimon (à dir.), adorado pelas celebridades: menos é mais –Tarsila; Divulgação/Divulgação

Uma das máximas do universo fashion, inspirada na ciência do químico francês Lavoisier, reza que, na moda, nada se cria, tudo se copia — passando sempre pela lupa de seu próprio tempo. Pois se antes o tênis de lona e borracha que casava com o uniforme escolar se alternava entre as cores azul e preto, as versões atuais surgem em variações cheias de bossa. Há modelos em tons dégradés, com aplicação de bordados e estampa animal — o famoso animal print, na Arezzo.

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Jeans, cores neon e tachinhas de metal sobressaem nos lançamentos da Schutz, que podem ser usados sem cadarço, como se fazia em outras eras. “Hoje, é possível combiná-lo tanto com peças mais descontraídas quanto com looks elegantes e sóbrios”, ensina a profissional de marketing Raquel Sodré, 40 anos, criadora da hashtag #executivausatênis, nascida com o objetivo de incentivar um estilo confortável no ambiente corporativo.

Mesclar uma peça simples com outra sofisticada configura o que os entendidos chamam de high-low — alto e baixo, na tradução literal. Essa mistura aparece nas passarelas internacionais desde os anos 2000, alçando os tênis, mais casuais, a uma posição de destaque. Atualmente, um dos preferidos entre celebridades como Julia Roberts, Jane Birkin e Naomi Watts é o Bensimon, uma espécie de primo do conga. De origem francesa, foi criado nos anos 80, apresenta visual tão simples quanto o brasileiro e é fabricado de forma artesanal, com materiais mais ecológicos — outra manivela do consumo neste século XXI.

“O retorno desses modelos mostra que estamos diante de uma nova geração, que privilegia o bem-estar acima de tudo, sem deixar de lado a preocupação ambiental”, define a especialista em moda Paula Acioli. Em solo carioca, essa filosofia é empregada, por exemplo, pela loja de bolsas e sapatos Tarsila, que produz tudo localmente e com matéria-prima nacional.

arte conga

O conga foi criado em 1959 pela Alpargatas, a mesma empresa de calçados que lançou as Havaianas, disseminou-se nas décadas de 60 e 70, até encontrar seu apogeu nos anos 80. “Ele ganhou espaço entre a juventude mais descolada da época, que, inspirada no que vestiam ícones vanguardistas do mundo artístico, o combinava com jeans e camiseta”, lembra Paula. Uma das propagandas da época trazia, inclusive, o seguinte slogan: “Para quem só usa o que é moderno”.

Na década seguinte, quando os modelos esportivos emergiram com força embalados pela febre das academias de ginástica, acabou aos poucos evaporando de cena e ficou por muito tempo esquecido. Agora, basta olhar para as calçadas cariocas para constatar que esses dias de ostracismo ficaram para trás. Já diria Coco Chanel, “uma moda que não chega às ruas não pode ser chamada de moda”. Essa chegou.

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