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Longe dos olhos, perto do coração

Não sei bem ao certo quando isso começou, mas sempre lidei muito mal com enterros e velórios. Prefiro não ir. Todavia, olhando pra trás, tenho algumas intuições de onde vem essa minha esquiva.

Uma delas, ainda adolescente, vi uma senhora estendida no chão num prédio vizinho ao meu. Fui o primeiro a avistá-la e achei que ela estava passando mal. Chegando mais próximo, percebi os graves ferimentos externos quando o porteiro saiu gritando que ela tinha pulado da janela. Resultado, passei dias sem dormir direito e muito menos sem conseguir estar perto da minha avó. Fiquei dias impressionado e com aquela imagem na cabeça.

Já adulto, como agente de modelos e beirando os 30 anos, recebi uma ligação informando que um modelo do nosso casting havia sido encontrado morto numa região perigosa, perto da Central do Brasil (RJ). 

Além do choque (era um modelo próximo a mim e às vezes saíamos juntos), não entendi muito bem o que um rapaz que morava no Alto Leblon estava fazendo atrás da Central do Brasil. Causa da morte: overdose. Saiu de um quiosque na Avenida Niemeyer acompanhado de um casal estranho e sumiu. O que ocorreu depois foi praticamente solucionado, mas não vem ao caso.

O fato é que resolvi passar no velório, já tarde da noite. Àquela altura já não havia praticamente ninguém, apenas o pai (que eu não conhecia até então) e uma outra pessoa que não me lembro. De imediato, a expressão do pai já me corroeu a alma. Dei um abraço forte, dizia que gostava muito do filho dele e dei meus sentimentos. Não há ação que conforte esse tipo de dor.

Em seguida fui até o caixão e tive a sensação mais estranha que havia tido até aquele momento. 

Ver aquele garoto (ele morreu aos 26 anos) alegre, dançante, ousado e de sorriso fácil inacreditavelmente estático e pálido naquela caixa me deixou sem ar por alguns segundos. Lembro de ter sussurrado perto dele algo do tipo “ o que você foi fazer, meu garoto ?…”  Resultado: presenciar aquela cena me custou dias insones e semanas de introspecção.

Em 2004 foi a vez do meu pai. Um infarto fulminante aos 63 anos o levou. Não tínhamos família grande e muito menos unida. Eu e meu irmão cuidamos de tudo com a ajuda de alguns amigos. Velório de novo. Mais dor e um sentimento indescritível de realização da perda. Ver um corpo sem vida é 100% de certeza que não vivemos um pesadelo. É real, é doloroso demais. Só quem passou sabe.

Desde o dia 4 de maio, quando foi confirmado o óbito do Paulo Gustavo, tentei escrever essa coluna três vezes. Começava a redigir, mas a tristeza e o desânimo tomavam conta…

De forma orgânica e consequentemente espontânea também dei um tempo de acessar as redes sociais (muitas homenagens ao ator – algumas pouco genuínas, como é comum nessa plataforma). Além disso, todo o resto nessa plataforma ainda me parece pequeno, superficial e sem sentido. O que não é apenas uma impressão quando se trata da morte de alguém próximo e tão amado. Não condeno quem homenageia como próximo mas já consegue dançar no Instagram. Por outro lado é impossível não questionar o verdadeiro sentimento de tristeza. 

“Aqui faço um apelo que vale pra vida: se você não sente de verdade não aja como tal. Nenhum engajamento no mundo vale tamanha desfaçatez”.

A solução, além do afastamento momentâneo das redes, foi me agarrar ainda mais ao meu filho (nada se compara ao amor e à aura de uma criança) e procurei me lembrar apenas dos ótimos e divertidos encontros com o Paulo.

Conheci o Paulo em meados de 2007, quando minha “Minha mãe é uma peça” tinha acabado de migrar do Candido Mendes para o Teatro Leblon e o ator ainda era apenas uma promessa. Fomos apresentados pela atriz Vania de Brito, uma amiga em comum. Dali em diante foram muitos pães na chapa, regados a café e gargalhadas nas mesas da Rio Lisboa, tradicional padaria no Leblon. 

Nunca fui amigo íntimo, como me pareceu a maioria das pessoas nas redes sociais (apesar do Paulo tornar qualquer um como tal), mas éramos próximos por diversas circunstâncias eventuais. Tínhamos afinidades e empatia mútua. Além dos cafés despretensiosos, algumas vezes, com ele já famoso, ajudei-o orientando sobre orçamentos evolvendo campanhas publicitárias ou sobre algum contratante específico. 

No início da carreira, uma das brincadeiras que Paulo Gustavo mais gostava de fazer comigo era uma afronta profissional: 

– Ike, sabe o que está faltando no seu escritório ? EU!!! – Você precisa me agenciar!!!  Não sabe o que está perdendo…(e não sabia mesmo, querido*)

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Eu ria meio sem graça com a plena consciência de que muitas piadas do Paulo eram a pura verdade travestida de uma ironia com alvo certo. Eu argumentava (e é verdade) que não possuía tino comercial pra comediantes (já tinha recusado alguns) e não tinha experiência com atores que atuavam, predominantemente, no teatro.  

Tempos depois, com o sucesso consolidado de Dona Herminia mas ainda sem o status de “superstar”, Paulo sondou alguns amigos investidores para produzir a peça Hiperativo. Eu era um deles e novamente não mergulhei no projeto. Sem conhecimento de produção de espetáculos e fazendo minhas reservas financeiras “amarelei”. 

Olhando pra essas passagens no passado, vejo que Paulo Gustavo foi meu equívoco mais maravilhoso. Não vislumbrei o furacão que se formava, mas ao mesmo tempo deu muito orgulho acompanhar sua trajetória. Torci fervorosamente pelo seu sucesso. Fui sete vezes ao Teatro Leblon assistir à “MINHA MÃE ”, umas quatro sessões do HIPERATIVO e outras tantas do 220 volts. Sempre levando uma turma diferente. Um verdadeiro promoter do meu próprio vacilo. 

Me tornei fã da pessoa e do ator, o que não é difícil em se tratando de Paulo Gustavo.  

Sou cinéfilo desde adolescente, mas nunca fui fã de comédias. Quando adolescente, lembro de rir com Eddie Murphy nos anos 80, entretanto, sempre preferi dramas e suspenses. No Brasil, Jô Soares sempre me proporcionou boas risadas e, apesar de admirar o talento de Chico Anísio, não era o tipo de humor que me fazia rir. Nos dias de hoje, a turma do Porta dos Fundos tem episódios hilários, mas Paulo Gustavo é outro naipe. Não é comum. Ele trouxe um humor inédito, democrático, genérico e inesperado. Nunca se consegue saber qual a tirada que ele vai mandar. Não foi à toa que essa genialidade incomum gerou uma unanimidade que há muito tempo não se via. 

Já arrisco antecipar, sem medo de errar, que mesmo que tentem criar nunca haverá um “novo Paulo Gustavo”. A receita da Dona Déa Lucia não pode ser copiada, recriada ou comparada. Paulo é (sim, ainda no tempo presente) uma pessoa literalmente rara, espécie única.  

A notícia do seu falecimento foi através do noticiário. Havia mandado uma mensagem para ele no dia 16 de março, três dias após a internação, desejando uma recuperação rápida e indolor. Nunca o vi doente ou sofrendo. Fica até difícil imaginar aquele oceano de energia e vitalidade combalido. 

No dia seguinte à noticia, sentado na cadeirinha de trás do carro, enquanto o levava pra escola, meu filho soltou : 

– Papai, a mamãe me disse que seu amigo morreu e que você ficou triste – Não fica não, papai, ele virou estrelinha e foi lá pro céu”. 

Olhei pelo retrovisor e cheguei a esboçar um argumento mais justo para aquele diminutivo de estrela, mas considerei a pureza da intenção e concordei balançando a cabeça.

Nossas últimas trocas foram às vésperas do programa 220 Volts, no especial de fim de ano da TV Globo. E, claro, rimos muito. 

É assim que prefiro guardá-lo na lembrança. 

Se é fuga ou autoproteção não importa, Paulo Gustavo pode até estar longe dos olhos, mas estará sempre perto do coração. 

 

Ike Cruz é empresário artístico e consultor de imagem

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