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Nelson Sargento, o mundo das artes agradece por sua existência

Na manhã desta quinta-feira, 27 de maio, a aurora celestial convocou para eternidade, junto a onde vivem imponentes os deuses da música, um “suntuoso personagem de rudimentar beleza.” Certamente o sol e o som lhe guiaram até sua cadeira cativa no paraíso e nesse lugar privilegiado Nelson Sargento se sentou ao lado de Cartola, Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho, Élton Medeiros, Beth Carvalho e muitos outros bambas.

Nelson Mattos foi um baluarte, griot e mestre imortal da nossa cultura. É difícil não lembrar que no último desfile de carnaval antes da pandemia, ele foi destaque interpretando logo José, pai de Jesus, abençoando a avenida defendendo as cores da Mangueira.

Nelson Sargento nasceu no dia 25 de julho de 1924, tendo chegado ao mundo em pleno contexto de efervescência cultural e política produzido pela vanguarda do movimento modernista. Mesmo assim, infelizmente ainda viveu na pele a dura realidade de repressão ao samba. Com tudo, não se furtou em usar sua voz como forma de resistência e bradou: “Samba, negro, forte, destemido, foi duramente perseguido, na esquina, no botequim, no terreiro”.

Teve uma infância humilde, cresceu no Salgueiro, onde aos nove anos aprendeu a tocar tamborim. Na adolescência se mudou com a família para o morro da Mangueira e lá, por influência de nomes como Cartola e Nelson Cavaquinho, começou a aprender a tocar o violão e a compor. Surge então uma relação de intensa paixão pela Verde e Rosa que lhe acompanharia por toda vida.

Desenho do sambista Nelson Sargento feito pelo arquiteto Rodrigo BertaméRodrigo Bertamé/Arquivo pessoal

É curioso constatar que Nelson Sargento partiu desde plano poucas horas após o Dia Mundial da África, no mesmo mês em que sua grande amiga, Tia Maria do Jongo, igualmente seguiu para o orum. Logo em maio, onde também se comemora os aniversários de Jamelão e Beth Carvalho, amigos que de braços abertos saúdam agora a chegada do poeta na eternidade.

Nelson partiu no outono, estação que cantou em um samba memorável como: “Estação singela e pura, é a pujança da natura dando frutos em profusão”. Tenho certeza que logo que a dureza da vida permitir faremos um gurufim digno de sua grandeza.

Nesse momento é inevitável não recorrer a poesia musical que fez tanto sentido na vida do mestre. Assim que soube da triste notícia do falecimento fui tomado por uma série de emoções musicais em forma de canções. Primeiro lembrei que o “Samba agoniza mas não morre…”. Em seguida, a querida Regina Zappa trouxe a memória de: “Em Mangueira, quando morre um poeta todos choram, vivo tranquilo em Mangueira porque sei que alguém há de chorar quando eu morrer…”. Exatamente agora, enquanto escrevo este texto, não sai da minha cabeça: “Quando eu piso em folhas secas caídas de uma mangueira, penso na minha escola e nos poetas da minha estação primeira…”.

Nelson Sargento merece as mais belas lembranças e todas homenagens possíveis. Não tenho dúvidas que seu nome e obras ficaram guardados num relicário em nossos corações. Muito antes de sua morte Moacyr Luz e o saudoso Aldir Blanc, que nos deixou há uma ano em pleno mês de maio, fizeram uma música maravilhosa para presenteá-lo, chamada “Flores em Vida”. Uma das parte da letra que destaco afirma: “Como dizia outro Nelson, despedida não dá nenhum prazer, pra parar com essa mania de sofrer, trouxe aqui flores em vida pra você.” Por fim, termina da seguinte forma: “Nelson é o mestre sala dos mares singrando as águas da Baía”.

Paulão Sete Cordas reconhece que o amigo foi um artista que sempre cantou, pintou e escreveu sobre a realidade, dureza e beleza de seu povo. Paulão nos disse que: “Nelson é um dos grandes artistas do nosso país. Artista genuinamente popular nos deixa uma obra rica e extensa, seu repertório será incorporado ao que existe de melhor no mundo do samba.”

Paulão Sete Cordas e o amigo Nelson SargentoAgenor de Oliveira/Arquivo pessoal

Outra bela homenagem foi o texto escrito por Didu Nogueira, que de forma emocionante nos relata ter tido o prazer de conviver com Nelson. Didu chamou minha atenção para a grande memória e vivência artística de seu ídolo e amigo, chamado carinhosamente de “Mais Velho”. Contando que: “Nelson era um dos poucos que vivenciaram a ambiência originária do samba, ele trazia consigo o som dos tambores africanos no seus ouvidos e melodias”.

Com a devida autorização reproduzimos abaixo um trecho da carta escrita por Didu Nogueira.

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“Tive o prazer de fazer vários shows, e ter inúmeras conversas com Nelson, ele sempre estava presente nos meus aniversários, participou de vários sambas do Bloco do Clube do Samba e no seu último aniversário, resolvi invadir sua casa. Fui juntamente com meu amor Maria Dias e meu irmão Germano Fehr, que relutaram em subir. Mas mesmo assim, munido de um saco de lixo cheio de cerveja e com outras tantas na cabeça, eu levei todos para reverenciá-lo.

Nelson Sargento, juntamente com meu querido amigo Agenor de Oliveira, seriam os convidados da live do nosso programa Sambando pelo Brasil, na semana passada, porém, em função do Mais Velho não estar bem, cancelamos.

Minha comadre/irmã Zilmar Borges Basilio tinha me ligado muitos dias atrás pra que eu fosse visitá-lo e batêssemos um papo e tal. E assim foi feito, tive lá na quarta-feira passada e o Mais Velho já estava bastante debilitado, mesmo assim insistia em fazer a live do dia seguinte.

_ Não inventa Nelson, você precisa se cuidar.

E ele agoniado com aquele momento que estava vivendo sem produzir me disse Sargenteanamente.

_ Pô, parece que jogaram um pó em mim!

Se jogaram Mais Velho, não sei. Mas que você derramou em todos nós a beleza de suas artes, não tenho a menor dúvida.

Obrigado por absolutamente todos os momentos!”

Didu Nogueira e Nelson Sargento posam juntos com as floresdivulgação/Arquivo pessoal

O grande Paulo César Feital também fez questão de se pronunciar de forma emocionada. Feital havia gravado um lindo vídeo de apoio assim que Nelson sargento foi internado. Desde quinta-feira da semana passada nosso amis ilustre “Sargento” lutava conta os sintomas da Covid-19. Mesmo tendo sido um dos primeiros a serem vacinados, sua idade avançada e a imunidade abatida pelo tratamento de câncer de próstata que fazia, desde 2005, acabaram lhe comprometendo fatalmente.

Ao saber da trágica noticia, Paulo César Feital nos disse: “A música brasileira cria um novo vazio, um buraco imenso. Nelson era um dos últimos representam da monumental geração de cartola, Nelson Cavaquinho, Mano Décio e Silas de Oliveira. Com certeza o samba fica mais pobre, ele tinha um tamanho incomensurável. A musica brasileira hoje esta de luto e há de chorar muito de saudade. Infelizmente o mundo vai ficando mais carente, pobre de talentos e pessoas boas”.

O que serve de alento para nossa tristeza é saber que a herança artística de Nelson Sargento é imortal e que seu exemplo de vida ficara marcado em nossa história. Não restam dúvidas que o Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, nossa cidade e o país como um todo aplaudem de pé o espetáculo final desse astro que agora seguirá brilhando no céu, ao lado das mais belas estrelas.

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