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O ano em que Zuckerberg nasceu

Ainda dá tempo de parabenizar Mark Zuckerberg por seus 37 anos de vida, completados no último dia 14 de maio. Como não tenho perfil no Facebook, minhas congratulações vão por aqui mesmo, embrulhadas em texto, formato que prefiro à icônica curtida com o dedão digital pra cima.

Zuckerberg foi um dos criadores do Face quando tinha apenas 20 anos de idade. Abandonou Harvard para se dedicar ao projeto. Tornou-se bilionário; sua fortuna é “top five” no ranking dos endinheirados. Faz generosas doações e filantropia. Hoje, sua rede social – que já incorporou Instagram e WhatsApp – perfaz, ao lado de Google, Amazon e Apple, o grupo das big techs, corporações que moldam a forma como nos comunicamos, trabalhamos, consumimos, nos divertimos, namoramos, vivemos…

Até aí, tudo muito bom, tudo muito bem, mas datas comemorativas são propensas à reflexão crítica. Vale fazer uma viagem no tempo e jogar um pouco de água nesse chope.

No ano em que Zuckerberg veio ao mundo, o Brasil clamava por “Diretas Já”. Pelo planeta, a guerra era fria e, por isso, a extinta URSS não participou dos Jogos Olímpicos de Los Angeles. O universo tecnológico germinava: a Sony lançava o CD Player, e a Apple, o seu Macintosh, com incríveis 128kB de memória. Estamos em 1984. Não à toa, no comercial de lançamento do computador pessoal da marca de Steve Jobs – apresentado no Super Bowl – um telão é destruído por um arremesso de marreta, simbolizando um ato de resistência ao controle do “Grande Irmão”, em referência a um dos mais famosos livros de George Orwell.

Em “1984”, obra escrita em 1949, a sociedade é governada pelo regime totalitário do Partido, com censura, vigilância constante da rotina e dos relacionamentos, além da distorção de fatos. As casas têm “teletelas”, há microfones escondidos por toda parte. Não pode haver pensamentos livres, independentes. Na ficção de Orwell, a informação é restrita, não circula.

O curioso é que, na vida real de 2021, sofremos de muitos desses mesmos males. Os meios utilizados, no entanto, são outros, adequados a um ambiente onde reina a ideia de liberdade. Entregamos nossos dados voluntariamente, abrindo mão de privacidade em troca da promessa de prazeres virtuais. A informação, por sua vez, circula acelerada e fartamente na web, mas a Verdade é, muitas vezes, afogada em um oceano de irrelevância. Fatos distorcidos? Temos também.

Caracterizado pelo protagonismo das big techs, o mundo atual, no fim das contas, não parece tão diferente daquele descrito em “1984”. Um pequeno exemplo é o recente duelo entre Facebook e Apple pelo controle de nossos valiosos dados, enquanto clicamos incessantemente aqui e ali. Essa batalha do século XXI foi acirrada por uma nova funcionalidade criada para iPhone e iPad, que permite aos usuários restringirem a “bisbilhotagem” dos aplicativos. A inovação da Apple desagradou o Facebook, cujo modelo de negócios tem por base justamente as informações para fins publicitários.

Divulgado no fim de abril, o balanço trimestral do Facebook revela o que está em jogo. A receita atingiu US$ 26,1 bilhões. São 1,8 bilhão de pessoas que visitam a plataforma pelo menos uma vez por dia. O valor de mercado da rede social gira em torno de US$ 759 bilhões. São 48 mil funcionários (em 2020). O patrimônio pessoal de Zuckerberg bateu US$ 114 bilhões.

É só dinheiro, então? Não. Os impérios tecnológicos levantam consigo questões sensíveis e polêmicas, envolvendo desinformação, privacidade, política, saúde do corpo e da alma, valores e relações sociais. Ou seja, tudo que importa. Não se trata aqui de vilanizar o “aniversariante do mês” ou as demais techs e seus dirigentes. Trata-se de enxergar e combater a realidade distópica com doses de responsabilidade corporativa, educação digital e consciência. A decisão está, literalmente, nas palmas de nossas mãos.

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