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O maior carnaval do século: só com vacina, marco civil e planejamento

O prefeito Eduardo Paes anunciou que poderá haver réveillon e carnaval se tudo der certo com o cronograma de imunização da população acima de 18 anos até o fim de outubro. Há interesse do prefeito em avançar nessa decisão, já que um dos setores que mais gera renda para o município, o da cultura/entretenimento, está parado desde março de 2020. A sobrevivência dos profissionais da área depende necessariamente dessa decisão e de que ela seja de fato executada.

Já poderíamos estar em outro nível de imunização e de combate à pandemia da Coivid-19 se os governantes que pegaram a pandemia na sua origem não tivessem ignorado a seriedade do assunto, deixando de estabelecer comitês e grupos de crise que fossem capazes de um planejamento à altura do que se anunciava. Hoje colhemos os resultados dessa irresponsabilidade.

Nesse grupo de profissionais que estão com sua sobrevivência ameaçada se encontram os artistas e trabalhadores do carnaval. É urgente pensar e planejar, com antecedência, quais as possíveis saídas para uma festa que movimenta, pelos dados oficiais, mais de 3 bilhões de reais na economia da cidade. Até o momento não temos certeza de qual cenário teremos em janeiro e fevereiro de 2022, mas quando o prefeito da cidade começa a sinalizar com uma política de vacinação que deverá cobrir a maior parte da população, já dá para começar a pensar positivamente sobre o carnaval do próximo ano.

Desfile do Simpatia, em Ipanema, acontece desde 1985 e arrasta cerca de 300 pessoas.Foto Publius Vergilius I Sebastiana/Divulgação

O carnaval se faz com planejamento, principalmente no que tange a organização da festa e da cidade. O Ministério Público do Rio de Janeiro tem tido uma atuação bastante importante junto aos governantes, órgãos públicos e organizadores de blocos, promovendo nos últimos dois anos importantes debates para a solução de problemas recorrentes. A Comissão de Carnaval da Câmara dos Vereadores do Rio, presidida pelo vereador Tarcisio Motta, também tem estado à frente do assunto para tentar solucionar alguns gargalos sinalizados por moradores e organizadores.

Diante dos anúncios feitos ontem e hoje pelo prefeito Eduardo Paes, de abertura para eventos como réveillon e carnaval com a imunização, é urgente que esses debates sejam retomados para que possamos avançar naquilo que precisa ser resolvido. Um desses pontos é a votação do Marco Civil do Carnaval de Rua, que deverá estabelecer definitivamente a política de estado do assunto, retirando a possibilidade de decisões políticas de governo naquilo que é supra importante. Esse projeto está para ser votado há quase dois anos, sem sair do lugar.

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É urgente que a Câmara dos Vereadores vote o Projeto de Lei 556/2017.Publius Vergilius / Sebastiana/Divulgação

Foram três meses de audiências públicas democráticas, e mais tantos outros para se ajustar o texto do Projeto de Lei 556/2017, de autoria do vereador Reimont (PT), que estabelece normas claras para orientar a organização do carnaval, com os direitos e as responsabilidades de cada ente definidos para que não haja mudanças surpresas no caso de um governante ou outro, por exemplo, não ser adepto da festa de Momo.

O Rio, nesse quesito, está anos-luz atrasado, apesar de ter o maior carnaval do país, enquanto outras cidades, como Salvador e Recife, dão exemplo em organização de carnaval. O PL também cria comissões que serão formadas com a participação de representantes do poder público, associações de moradores, organizadores de blocos e sociedade civil para tratar da organização anual, já que o carnaval é uma festa dinâmica, podendo trazer alterações de formato ano a ano que precisam ser reavaliadas.

É urgente que a Câmara dos Vereadores vote esse projeto. Se, de fato, tivermos como realizar o carnaval em 2022, é de supra importância que essas regras já estejam definidas e que não tenhamos que passar novamente pelos apertos e sufocos dos dois últimos carnavais na gestão do ex-prefeito Marcelo Crivella. Não dá para exigir dos blocos que assumam responsabilidades que não são da sua competência, e também não dá mais, pelo tamanho do carnaval carioca, de deixar de olhar para os problemas de saúde, segurança, mobilidade, excesso de lixo, entre outros, subprodutos do gigantismo adquirido. É uma equação que tem fechar, para o bem da cidade.

Indo além, não é mais possível que o Rio de Janeiro não trate o carnaval como um bem importante na sua constituição de cidade – bem simbólico, identitário, imaterial e econômico – fazendo dele parte da sua política de desenvolvimento. É preciso inverter essa lógica que vê o carnaval apenas como alegoria. É preciso que os governantes abracem de vez essa ideia, de que carnaval é coisa séria, e que precisa ser tratado como tal. Ao prefeito Eduardo Paes, aos secretários municipais, aos vereadores, fica o pedido: vamos falar de carnaval com antecedência e planejar com responsabilidade o que for possível. Vamos votar o PL 556/2017e deixar o carnaval organizado para que ele aconteça da melhor forma quando tivermos a certeza de que chegou a hora. Só assim será “o maior carnaval do século”.

Rita Fernandes é jornalista, escritora, pesquisadora de cultura e carnaval e presidente da Sebastiana.

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