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O uso consciente dos corticoides na Covid-19

Os corticoides, também conhecidos como glicocorticosteroides, são medicamentos muito importantes no tratamento de várias doenças como a Covid-19, mas devem ser utilizados apenas em pacientes com indicações medicas específicas, uma vez que estes podem apresentar alguns efeitos colaterais importantes.  O estudo RECOVERY foi um importante marco na pandemia de SARS-CoV-2, por ter demonstrado que há redução na taxa de mortalidade, através do uso da dexametasona (um tipo glicocorticosteroide) em um grupo específico de pacientes com covid-19.

Para debater sobre o uso dos corticoides na Covid-19, convidei o Dr. Lucio Vilar, médico, professor-associado e coordenador da disciplina de endocrinologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), chefe do serviço de endocrinologia no Hospital das Clínicas da UFPE, doutor em ciências da saúde pela Universidade de Brasília (UnB).         O Dr. Lucio é uma referência no assunto e autor do livro: Vilar. Endocrinologia Clínica, o maior tratado de endocrinologia da América Latina, cuja sétima edição, publicada em janeiro de 2021.

Dr. Fabiano Serfaty:

Devemos usar corticoides em todos os pacientes com covid-19 ? Por quanto tempo ?

Dr. Lucio Vilar: 

O estudo RECOVERY demonstrou o beneficio na Covid-19 de utilizar por até 10 dias um tipo de corticoide, a dexametasona na dose de 6 mg, uma vez ao dia, por via oral ou intravenosa.  O uso da dexametasona reduziu a mortalidade apenas dos pacientes hospitalizados com covid-19 que estavam recebendo ventilação mecânica ou oxigenioterapia, mas não dos pacientes com Covid-19 que não precisaram de suporte respiratório. Por isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) indica o uso da dexametasona apenas para os casos graves de covid-19, que precisam de ventilação mecânica ou oxigenioterapia.

Dr. Fabiano Serfaty: 

Muitos pacientes começaram utilizar corticoides indiscriminadamente nos pacientes com covid-19, mesmo sabendo que o benefício é restrito à um grupo de pacientes como citado acima. Qual é a sua opinião sobre isso?

Dr. Lucio Vilar: 

Embora não haja consenso sobre o uso de corticoide na covid-19, não há dados científicos que apoiem seu uso rotineiro. No estudo RECOVERY, os benefícios da corticoterapia em termos de redução da mortalidade foram observados apenas em pacientes recebendo suporte respiratório. Também deve-se considerar que todos os glicocorticoides têm efeitos colaterais e que seu uso prolongado pode comprometer a evolução da covid-19.

Dr. Fabiano Serfaty: 

Quais os benefícios dos corticoides nos pacientes com covid-19?

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Dr. Lucio Vilar: 

O benéfico dos corticoides se dá pela sua atividade imunossupressora, que reduz à liberação maciça de citocinas pró-inflamatórias as citocinas, que ocorre na Covid-19.  Deste modo, a sua utilização pode reduzir o dano pulmonar induzido pelo novo coronavirus.

Dr. Fabiano Serfaty: 

Os corticoides apresentam efeitos colaterais e seu uso indiscriminado pode acarretar uma série de consequências, portanto, este tipo de medicamento precisa ser usado com cautela, considerando a relação risco-benefício para o paciente. É importante chamar atenção que no estudo RECOVERY o grupo de pacientes com covid-19 que não necessitava de oxigênio não apresentou benefícios associados ao uso de glicocorticoides e ainda apresentaram possibilidade de danos.

Outro ponto fundamental é que não há evidências apoiando o uso de glicocorticoides por tempo prolongado em pacientes com covid-19 para prevenir possíveis sequelas adversas, como fibrose pulmonar.

Quais são os potenciais malefícios associados ao uso de glicocorticoides na covid-19?

Dr. Lucio Vilar: 

A terapia com corticoides pode apresentar efeitos colaterais com infecções secundárias, hiperglicemia, psicose, necrose avascular entre outros e seu uso indiscriminado pode trazer consequências indesejadas. 

Uma publicação recente no periódico Lancet coloca os glicocorticoides como uma faca de dois gumes na luta contra covid-19 e pondera que seu emprego precisa ser feito com cautela, considerando a relação risco-benefício, e por pouco tempo (até 10 dias). 

Em casos graves de covid-19, o efeito imunossupressor dos glicocorticoides tem um lado benéfico (redução da produção de citocinas/quimiocinas) , por outro lado, eles também pode diminuir a imunidade celular, reduzindo a apresentação de antígenos e a proliferação de linfócitos.  

Além disso, os glicocorticoides podem agravar o estado de hipercoagulabilidade da covid-19, uma vez que tendem a elevar as concentrações séricas de fatores de coagulação e fibrinogênio. Devemos considerar o possível efeito dos corticoides no ambiente pró-coagulante de pacientes com covid-19, nos quais mesmo o tratamento com anticoagulante poderia não proteger suficientemente os pacientes das complicações trombóticas nestes pacientes.

A mensagem que é importante deixarmos para os leitores é que o uso da dexametasona é indicado para os pacientes com Covid-19, que necessitam de suporte respiratório e que os corticoides não devem ser utilizados a adequada orientação médica.

Referencias:

  1. Vilar L. Endocrinologia Clínica, 7a edição. Rio de Janeiro:Guanabara Koogan; 2021.
  2. RECOVERY Collaborative Group, Horby P, Lim WS, Emberson JR et al. Dexamethasone in hospitalized patients with Covid-19. N Engl J Med. 2021;384(8):693-704.
  3. Corticoides: uma faca de dois gumes na covid-19. https://portugues.medscape.com/verartigo/6506153#vp_1
  4. Mishra GP, Mulani J. Corticosteroids for COVID-19: the search for an optimum duration of therapy. Lancet Respir Med. 2021; 9(1):e8.
  5. Alexaki VI, Henneicke H. The role of glucocorticoids in the management of COVID-19. Horm Metab Res. 2021;53(1):9-15.

       

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