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Pixinguinha e São Jorge: divindades suburbanas

No dia 23 de abril de 1897, muitos estavam festejando enquanto Dona Raimunda da Rocha Vianna começava a sentir as dores do parto. Na mesma data em que chegava ao mundo Alfredo da Rocha Vianna Filho, tambores e procissões reverenciavam o Santo Guerreiro dos católicos, São Jorge, ou Ogum para os cultos afro-brasileiras.

Foi no subúrbio de Piedade, para alguns na rua Alfredo Reis, mas para outros a rua certa é a Gomes Serpa, que nasceu o futuro gêneo Pixinguinha. É curioso perceber que ele viveu os primeiros anos da sua vida muito próximo de onde surgiria a igreja em devoção a São Jorge, no vizinho bairro de Quintino Bocaiuva. Nessa fronteira, recortada pela rua Clarimundo de Melo, eu sempre costumava ouvir, da casa no Encantado, os fogos da Alvorada de São Jorge.

São tantas história suburbanas que poderíamos citar, somente nesta parte restrita dos subúrbios. Porém, hoje o foco é falar um pouco mais de Pixinguinha, que além de Piedade também morou nos bairros do Catumbi, Jacarepaguá, Olaria e Ramos. Sua relação com o Choro é indissociável, seu pai era um flautista e costumava promover rodas de choro em casa, assim influenciando diretamente Pixinguinha e seus irmãos.

Segundo um depoimento para o Museu da Imagem e do Som, o próprio Pixinguinha fala que sua iniciação musical começou muito cedo: “Com onze anos de idade eu já tocava meu cavaquinho. Fazia um Dó maior e um Sol maior, ensinados pelo meu irmão Henrique. Lá em casa, uns tocavam violão, outros cavaquinho. Gostavam muito de mim porque era garoto e tinha um ouvido muito bom. Ainda tenho, graças a Deus”.

Pouco tempo depois, ainda menino, Alfredo Filho decide trocar o cavaquinho por uma flauta de folha de flandres. Aos 14 anos já começa a tocar profissionalmente e, em 1912, passa a integrar o chamado Trio Suburbano, junto ao pianista Pedro Sá e o violinista Francisco de Assis. Cinco anos depois entraria na orquestra do Cine Palais, da Av. Rio Branco, onde atuou até outubro de 1919, quando o cinema foi fechado devido ao surto de gripe espanhola.

Oito BatutasIMS/Divulgação

Foi para tocar na reabertura do cinema Palais que os Oito Batutas se reuniram pela primeira vez. Logo em seguida a uma excursão pelo país, partem de navio para Paris, em janeiro de 1922.

No retorno ao Brasil, Pixinguinha traz na bagagem um saxofone que usará logo na apresentação da Exposição do Centenário da Independência.

A partir de então, o sucesso e a extrema qualidade da obra de Alfredo da Rocha Vianna Filho seria cada vez mais reconhecida. O músico e pesquisador Barão do Pandeiro afirma que Pixinguinha é um baluarte, pilar fundamental da consagração do Choro no campo musical, assim como, expoente singular da cultura brasileira.

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Segundo o compositor, arranjador, diretor musical e multi-instrumentista Abel Luiz: “Com a comemoração do Dia nacional do Choro, na mesma – e, não por acaso – data das comemorações de São Jorge, na cidade do Rio, eis que um novo Santo emerge – Pixinguinha. Esse que, pra mim, além de acumular as características dos Santos traz consigo a humanidade e o cotidiano de quem vive e resiste através da cultura, seja cultuando e reverenciando seus ancestrais, seja inovando e compartilhando de sua vida e obra como lição de generosidade”.

Abel também nos conta como o Choro chegou na sua vida dentro do seio familiar: “Como cotidiano, o hábito de se ouvir e viver música, em minha família, até onde sei, iniciou-se por conta de meu bisavô, Sr. Joaquim. Este, pai de meu avô por parte de mãe, o popular e – alguns casos – lendário Seu Luiz. Com ele, meu avô, desde 5 anos, além de aprender a tocar cavaquinho, desenvolveu o apresso pelo Choro nas rodas realizadas em sua e em outras casas de família. Hábito que, modestamente, tento preservar até os dias atuais. Assim, quase que naturalmente, meu primeiro contato com a obra de Pixinguinha foi em casa, com meu avô e, logo depois, na Roda que acontecia na Rua Felício, entre Cascadura e Cavalcanti. Lá, dentro de um barraco de tábuas pintadas de azul, três irmãos – Miro (cavaquinho), Olavo (Bandolim) e Rodrigues (Violão de 7 cordas) – eram os músicos/anfitriões que acolhiam, com sua amizade e música, eu, meu avô e mais uma galera que se espremia dentro daquele barraco, todo domingo de manhã, para tocar e ouvir Choro. Não é por acaso que tal roda, iniciada em 1948, entre seus altos e baixos, conseguiu adentrar os primeiros anos do século XXI”.

Luciana RabelloCasa do Choro/Divulgação

Em uma generosa entrevista concedida por Luciana Rabello, a cavaquinista, compositora e produtora, fundadora da gravadora Acari Records e da Escola Portátil de Música ressalta a importância do Choro como primeira música urbana tipicamente brasileira. E nos conta que o contato com o choro também começou dentro de casa: “Através do meu avô, violonista, chorão, regente de coral, arranjador de conjuntos vocais, José de Queiroz Batista, um paraibano natural de Serra do Teixeira. Depois tive grande aprendizagem em núcleos como o Sovaco de Cobra, da Penha, a casa de Afonso Machado e o núcleo de Niterói, com Jonas Pereira da Silva, Ronaldo e o pessoal da Velha Guarda de Jacarepaguá, reduto esse frequentado por Jacó do Bandolim. Essa foi minha escola”.
Lucina também nos contou como vê a relação entre o Choro e as sociabilidades suburbanas: “Essa relação é simbiótica, o Choro é uma expressão popular, uma criação da sabedoria popular. Ao mesmo tempo em que ele é fruto da sabedoria popular também é um fator de educação social. Toda essa ancestralidade produziu tradições gerando um código que é brasileiro, que foi criado aqui pela junção de todas essas informações frutos de uma sabedoria muito profunda. Ao mesmo tempo que ele é uma criação do povo ele também cria o povo”.

Ela conclui enfatizando a importância de celebrarmos o Dia do Choro: “O Dia Nacional do Choro é uma forma de respeito e reconhecimento dessa cultura importantíssima”.

Esse ano a Escola Portátil de Música idealizada por Luciana Rabello completa 21 anos de existência e segue agregando pessoas. Para comemorar uma data tão importante organizaram o III Festival da Casa do Choro, com Workshops e shows de Luciana Rabello, Cristóvão Bastos, Mauricio Carrilho, Jayme Vignoli, Rui Alvim, Pedro Aragão e Paulo Aragão, entre outros grandes nomes da música instrumental.

Ainda dentro das comemorações do Aniversario de Pixinguinha e do Dia Nacional do Choro, indicamos outras atividades bem interessantes. Neste sábado, dia 24 de abril, organizamos uma roda online, no canal Diálogos Suburbanos do Youtube, pra falar da centenária história do Choro e sua relação intrínseca com a cidade.

Para debater sobre esse autêntico gênero musical e patrimônio imaterial carioca convidados Abel Luiz, coordenador musical do Bloco Loucura Suburbana, no Engenho de Dentro, Ana Caetano, criadora da roda de choro Arruma o Coreto, na Praça São Salvador, e Luiz Carlos Nunuka, Diretor do Instituto Cultural 100% Suburbano, na Praça Ramos Figueira.

Diálogos SuburbanosDivulgação/Arquivo pessoal

Para terminar a semana, também convocamos músicos de todos os subúrbios brasileiros para apresentarem Choros de sua escolha e juntamos tudo no canal Papo de Subúrbio. Vale muito conferir as histórias e apresentações dos grupos: Sexteto Suburbano, Mercado do Choro e Choro Porque Gosto, o Duo Maíra e Moema Macêdo e dos músicos Rocino Crispim, Marcos Tannuri, Rafael Marques, Toni Costa, Beto do Bandolim, João Victor, Leandro Montovani, João Paulo Albertim, Felipe Pedro, Abel Luiz e Naara Santos, entre outros, que contribuíram para disponibilizarmos essa Playlits:

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