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Quando a fragilidade é força

Semana passada o mundo perdeu um dos grandes nomes da história do cinema. Famoso por ser o roteirista dos filmes de Buñuel, Jean Claude Carrière foi muito mais do que isso. Ganhador de dois Oscar, o criador de clássicos como “A Bela da Tarde” e “O Discreto Charme da Burguesia” desempenhou um importante papel como teórico da sétima arte e, acima de tudo, fundamental pensador do seu tempo.

Um dos trabalhos pouco conhecidos de Carrière é o livro “Fragilidade”, lançado em 2007. Ele abre a obra com o seguinte parágrafo: “Viemos todos ao mundo com a etiqueta “frágil”. Um nada nos fere e até mesmo nos mata. Acidente, doença brutal, bomba dentro do metrô, uma guerra, uma bala perdida, um carro que derrapa ou que explode no meio da multidão, um degolador, um curto-circuito, uma cascavel, um passo em falso, tudo pode ser fatal. Inocentes morrem de uma picada de abelha, de uma queda na escada, de um acesso de raiva, de um espirro. Morremos também durante o sono, se nosso coração parar.” Pois foi exatamente assim que Carrière morreu: dormindo.

No livro, Carrière faz um tratado minucioso e acessível sobre esse sentimento que nos é tão comum e que nos define como humanos: a fragilidade. Não deixa de ser irônico que o autor tenha morrido na semana em que um participante do Big Brother, Lucas Penteado, decidiu revestir de força a sua fragilidade e disse não aos abusos psicológicos e ao bullying de que era vítima reiterada vezes dentro da casa.

Indivíduos e grupos: todos calam sua fraqueza, ou então a travestem sob aparências de força”, afirma Carrière. Não foi o que fez Lucas Penteado. Ao optar abandonar o programa, ele mostrou que a desistência nem sempre ocorre por fraqueza. Lucas intuiu que tinha chegado ao seu limite. Seu instinto de autoproteção falou mais alto: a humilhação contínua não era mais uma opção aceitável.

Coincidentemente, na mesma semana em que Lucas pediu para sair do Big Brother Brasil, um participante era expulso da versão portuguesa do programa por fazer citações e gestos nazistas como forma de, alegou ele, “brincadeira”. Ser expulso ou pedir para sair? Onde reside a força e onde reside a fraqueza? Lucas Penteado saiu do programa maior do que entrou e deu uma lição em tanta gente que se permite violentar em pequenos gestos do dia a dia, a despeito da própria saúde mental.

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”, escreveu Fernando Pessoa no “Poema em Linha Reta”. Em um mundo que valoriza os “campeões em tudo”, que depositou no sucesso e na vitória as únicas formas dignas de reconhecimento, é um alento encontrar no texto de Jean Claude Carrière e no exemplo de Lucas Penteado a força da fragilidade.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

 

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