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Quase 80% das mulheres que trabalham com música já sofreram discriminação

A grande maioria das mulheres que vive de música no Brasil já sentiu os efeitos do machismo: 79% afirmaram já sofreram discriminação de gênero. É o que mostra uma enquete feita pela União Brasileira de Compositores (UBC) com 252 musicistas, cantoras, compositoras e produtoras técnicas da música em todo o país.

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A pesquisa e os depoimentos coletados refletem a luta que muitas profissionais enfrentam para ganhar espaço no mercado musical. “Hoje, por exemplo, somente 15% dos nossos associados são mulheres, em um universo de 40 000 titulares. Levantando esses dados, queremos propor uma discussão maior sobre o tema, para aumentar a chance desse quadro ser transformado”, afirma a coordenadora de Novos Negócios da UBC, Vanessa Schütt.

A cantora e compositora Paula Lima, diretora da UBC, conta que sua trajetória na música, além de ser atravessada pela discriminação por gênero, também perpassa questões de raça. Atuando desde 2001 como cantora solo, ela destaca a dificuldade no início da carreira para alcançar a visibilidade.

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Eu me lembro quando um dos produtores da minha gravadora disse que era melhor não me contratar, porque outra cantora negra estava sendo lançada na época, e ele não sabia como o mercado ia aceitar duas cantoras negras ao mesmo tempo. E por que, num país onde 64% da população negra, somente uma poderia ser aceita?”, ressalta. 

Na pesquisa, que complementa o relatório anual Por Elas Que Fazem a Música, divulgado em março pela UBC, 60% das mulheres se declararam brancas, contra 40% de pardas, pretas, amarelas e indígenas.

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Do total de mulheres que responderam à pesquisa, 33% disseram ser compositoras, 30% intérpretes, 19% são produtoras fonográficas, 17% são instrumentistas e 3% atuam em outras áreas técnicas – muitas delas afirmaram que atuam em mais de uma função.

Grande parte das profissionais são da Região Sudeste (63%) seguida do Nordeste (17%), Sul (12%), Centro-Oeste (4%) e Norte (2%). A maioria possui entre 31 a 40 anos de idade (35%), 28% têm até 30 anos, e 24% delas estão na faixa etária entre 41 e 50 anos de idade.

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Em relação à sexualidade, 55% se definiram como mulheres cisgênero heterossexuais, 23% como cis bissexuais, 17% como cis homossexuais e apenas um pouco mais de 1% como mulheres transgênero.

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Já em relação a escolaridade, 46% possuem Ensino Superior completo, 12% têm mestrado e doutorado e 3% têm segundo grau incompleto ou menor escolaridade.

“Colegas músicos frequentemente não escutam minhas opiniões por acharem que não tenho muito a acrescentar, apesar de eu ser graduada em música pela Universidade Federal da Bahia e ter vasta experiência no mercado”, relata um dos depoimentos.

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Mesmo com maior formação, devido a grande parte atuar de forma independente e fora do mercado mainstream, 53% declararam nunca ter recebido direitos autorais e 51% afirmaram receber, no máximo, R$ 800 pela fonte.

“Recebi o cachê mais baixo que o combinado pelas gravações de voz de um disco completo. Eu era a única mulher da banda e atuava como cantora/intérprete. Até hoje não recebo pelos direitos conexos”, diz outro relato enviado à pesquisa.

A maior parte também se declara solteira (53%) e sem filhos (68%), o que, segundo a UBC, lança alguma luz sobre a dicotomia entre poder dedicar-se à carreira ou formar uma família frequentemente imposta às mulheres não só no meio musical, mas no mercado como um todo.

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Através dos dados, a pesquisa busca mostrar a importância de debater o tema e incentivar a mudança deste cenário.

“Eu acredito que já avançamos bastante nessa luta, mas precisamos continuar ocupando espaços de relevância e deixando o medo de lado, para que mais mulheres se sintam livres para se profissionalizarem e estarem onde quiserem. Temos hoje grandes nomes femininos na música brasileira como Ivette Sangalo, Anitta, Iza, que são uma inspiração”, afirma Paula Lima.

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