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Senna e Paulo Gustavo: inspirações para reconduzir a humanidade ao pódio

A guerra contra o vírus expõe a ferida das prioridades. Delas se orgulhariam nossas mães, filhas, professoras?

Do existencialismo à Pirâmide de Maslow, múltiplas teorias vasculham a cartografia do prioritário no curso de necessidades, desejos, dilemas. Noves fora, o poder historicamente guia as prioridades dominantes. Não raramente redundam violência e desamparo.

Nem o flagelo pandêmico ameaça tal incidência. Combinada à recessão moral, ela desemboca na falta de vacina, de fraternidade, de densidade cívica. Deságua nas sabotagens às regras sanitárias, na politização da saúde em pleno massacre, na falsificação de atestados para furar a fila do imunizante.

Essas farinhas engordam o mesmo saco. Pouco têm de pitoresco. Indicam traços estruturais, sistemáticos catalizadores de preconceitos, privilégios, descasos.

Ao refletir sobre o totalitarismo, a filósofa Hannah Arendt (1906-1975) considerava que o mal se banaliza por uma incapacidade de pensar o bem comum. Arendt destrinchava a genética obscurantista. Mais atual, impossível.

Desde que nos proclamamos reis do pedaço, a responsabilidade social encontra dificuldades para frequentar o camarote das prioridades. Felizmente figuras como Paulo Gustavo lembram a importância de seguir tentando.

A comoção em torno da despedida prematura do ator transcende a identificação com as personagens recheadas de cotidiano: caricaturas do caldeirão brasileiro e da comédia humana. Daí a universalidade refletida no aplauso plural, agregador, irrestrito.

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Quando faz rir de nós mesmos, Paulo Gustavo dispersa egoísmos e vaidades do varejo para acalentar o atacado do estar-junto. Um condão típico da arte e do esporte.

Grandes ídolos e eventos esportivos, em especial a Olimpíada, emanam essa força integradora. Por isso encantam o marketing no constante empenho em lubrificar relações de consumo.

O adeus igualmente precoce de Ayrton Senna confluiu uma integração memorável. Há 27 anos, a fatídica curva Tamburello transformava o prodígio em mito. Muito antes, ele já unia corações.

Senna era a flor no asfalto. Uma bonança às tormentas nacionais. Uma ponte ao impossível. Era o lampejo de um Brasil vitorioso no breu das misérias renitentes. A realidade vestida de ficção.

Paulo Gustavo era a ficção vestida de realidade. Espelho convertido em escárnio, e vice-versa. Um despretensioso divã. Era humanidade na veia, descida do salto.

Acima de esperanças e sorrisos, o piloto e o ator despertavam humanidade. Inspirações para reavivarmos a consciência coletiva e mudarmos as prioridades. Para estancarmos a depreciação da vida alheia e a epidemia de indiferença cujas vítimas se acumulam como se não houvesse outra iminência além da Tamburello.

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Alexandre Carauta é doutor em Comunicação, mestre em Gestão Empresarial, especialista em Administração Esportiva, formado também em Educação Física.

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