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Veganismo, um mercado bilionário

Que tal um Doritos vegano? Pois a improvável experiência gourmet parece estar perto de se concretizar. Há alguns dias, a PepsiCo, fabricante do Doritos, um dos mais vendidos snacks do mundo, fechou uma joint-venture com a foodtech americana Beyond Meat, resultando na criação de uma empresa de produtos substitutos à proteína animal, os chamados plant-based. A The PLANeT Partnership vai produzir lanches e bebidas vegetais.

O movimento da PepsiCo é apenas um entre tantas outras iniciativas na mesma direção. A entrada de companhias tradicionais de diversos segmentos no mercado vegano aquece o termômetro da preferência por um estilo de vida que ganhou forma ainda na década de 1940, no Reino Unido.

Negócios à parte, há forte ideologia e emoção envolvidas no veganismo. Segundo o The Vegan Society, grupo que criou o termo em meados do século passado, veganismo é uma filosofia que tem por objetivo excluir, “na medida do possível e praticável, todas as formas de exploração e crueldade contra animais na alimentação, vestuário e qualquer outra finalidade”.

O estilo de vida também promove “o desenvolvimento e uso de alternativas livres de origem animal para benefício de humanos, animais e meio ambiente”. Se já foi considerado coisa de excêntrico ou bicho-grilo, o veganismo hoje ganha espaço. E aí, as companhias abrem o olho. Prova disso são as cifras de um mercado em alta no mundo todo. É o que mostra levantamento da Emergen Research, empresa de pesquisa de mercado com sede em Vancouver (Canadá).

Em 2027, conforme a Emergen, o mercado mundial de proteína à base de plantas vai girar US$ 16,6 bilhões, ou aproximadamente R$ 90 bilhões. Em 2019, o tamanho era de US$ 9,9 bilhões. Entre os motivos desse aumento de cerca de 7% no segmento, está a maior “conscientização da população, preocupada com a saúde e suas mudanças nos padrões alimentares”. Por outro lado, “os avanços nas atividades de pesquisa em biotecnologia e microbiologia devem impulsionar o desenvolvimento do mercado” . A análise destaca, entre outros pontos, o avanço de suplementos alimentares à base de proteínas vegetais e ressalta as inovações das foodtechs.

Um dos propulsores dessa indústria, em meio a uma “crescente intolerância à lactose no mundo”, é o leite vegetal – adotado, aliás, na tradicional rede Starbucks. O estudo cita ainda o aumento da diabetes tipo 2 e de doenças cardiovasculares para mudanças de comportamento alimentar na direção das proteínas à base de plantas.

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No cardápio das proteínas, um dos principais focos é a soja, grão que deteve a maior participação de mercado da proteína vegetal, representando quase a metade (47,8%) das fontes em 2019. A fácil disponibilidade de matérias-primas e o valor nutricional estão impulsionando a utilização da soja, cujo maior produtor global é o Brasil. Ironicamente, hoje o principal destino da soja brasileira é a ração animal.

Para as gerações mais novas, entretanto, o apelo para abraçar a filosofia vegana não é a saúde alimentar. O veganismo ganha força porque carrega ideais de proteção ambiental e respeito aos animais. Pesquisa feita pela marca Oatly no Reino Unido revelou que, enquanto menos de um terço dos homens com mais de 45 anos estariam dispostos a mudar suas dietas com o objetivo de beneficiar o planeta, essa proporção cresce para cerca de metade quando se trata dos Millenials e da Geração Z.

A onda vegana ainda tem muito espaço para crescer, mas não está livre de polêmicas e obstáculos. Um exemplo é a produção Dieta dos Gladiadores, da Netflix, que prega a redução do consumo de carne, exalta a alimentação vegana e acompanha a melhora na saúde e na performance de atletas. O documentário se baseia, no entanto, em dados que são questionados por especialistas. Mas a narrativa impressiona e tem depoimentos de peso, entre os quais os de Arnold Schwarzenegger e Lewis Hamilton. Seja como for, vale a pena assistir, para refletir sobre o tema ou até mesmo para criticar.

Falta da vitamina B12, de ferro e cálcio, entre outras carências comuns aos veganos, é um dos pontos questionados por médicos. Não dá para sair fazendo a nova dieta, sem consultar um nutricionista, que vai avaliar cuidados necessários – e suplementos – de acordo com a faixa etária e as características individuais. Nessa linha, mudanças gradativas, como a Segunda sem Carne, são alternativas que vêm sendo cada vez mais adotadas.

Aqui no Rio, restaurantes veganos são minoria. E as opções de pratos veganos em restaurantes não veganos são raras, embora um tantinho mais difundidas a cada dia. Nas lojas e supermercados, vendedores ainda não conhecem bem as características dos produtos. Falta informação sobre o tema, há muitos mitos e crenças que circulam sem embasamento.

Por fim, outro empecilho à expansão do mercado, pelo menos no Brasil, parece ser o preço – considerado alto por muitos consumidores em potencial. Um queijo vegano no supermercado custa cerca de três vezes mais que o produto de origem animal.

Como se vê, o veganismo envolve um amplo debate, com choques culturais, mudança de hábitos, conflitos geracionais, preocupações com saúde e preservação ambiental. Se por um lado, ainda está longe de ser consenso, por outro já provou que não é apenas um modismo e entrou de vez no radar econômico de empresas e países.

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