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Um 7 de Setembro com Paulo Autran

O que esperar do 7 de setembro? É a questão que mais tem fomentando o noticiário dos últimos dias. O bestiário produzido pelo governo, que passeia de moto e vive à base de idiotices, só fala nisso.

Estão tentando sequestrar o dia da independência e maquiar o autoritarismo com a falsa máscara de grito por liberdade. É triste. A brutalidade muitas vezes ganha excesso de atenção, é o tosco e efêmero triunfo dos espalhafatosos. Mas os que veem no fuzil um instrumento de libertação estão condenados a viver eternamente suas próprias prisões. É um retrato gradeado de tanta gente hoje que fica difícil saber onde vai dar essa marcha dos insensatos.

Enquanto não chegamos lá, vale lembrar outro marco do dia 7 de setembro: Paulo Autran. O Senhor dos Palcos, patrono do teatro brasileiro, nasceu no centenário da nossa independência e faria 99 anos na próxima terça-feira.

Algumas de suas atuações marcantes podem servir de inspiração para esses dias confusos.

Uma delas é na peça _Liberdade, Liberdade_, escrita por Millôr Fernandes e Flavio Rangel a partir de dezenas de textos e fatos históricos envolvendo lutas por liberdade e governos autoritários. Foi um marco, lançada em 1965, quando vinha para alertar sobre a perda gradativa de liberdade que acontecia no Brasil ainda na primeira fase da ditadura, nos anos pré-AI-5.

Uma das primeiras falas de Paulo na peça é uma citação a Aristóteles, que diz muito sobre a escalada de ameaças de golpe do presidente brasileiro: “As tiranias são os mais frágeis governos”.

Hoje, a fraqueza do presidente do Brasil se mede nos decibéis de seus gritos golpistas. O som da fragilidade é ensurdecedor.

Mas a atualidade do texto não para por aí.

Já no meio da peça, outra fala de Paulo, desta vez em referência aos fascistas de Franco, na Espanha, faz piada com o despreparo dos militares para comandar o país. Também caberia muito bem para o Brasil atual, quando lembramos das trapalhadas de farda em alguns ministérios. Ao encenar o papel de um general espanhol diante de um obstáculo, ele diz: “Este é um problema que qualquer criança de três anos é capaz de resolver”. Em seguida, faz uma pausa e completa: “Eu… humm… tragam-me uma criança de três anos”.

A mistura de sátira e alerta crítico, dramático, também dá o tom de outro personagem vivido por Paulo, o conservador golpista Porfírio Diaz, em _Terra em Transe_, de Glauber Rocha. A sequência final do filme, em que o político é coroado, traz palavras pomposas para uma sentença grotesca que hoje volta a pairar sobre nossos ares: “Aprenderão! Botarei estas histéricas tradições em ordem! Pela força, pelo amor da força, pela harmonia universal dos infernos, chegaremos a uma civilização!”.

Com menos vocabulário e mais grosserias, chega-se perto do que o governo brasileiro tenta pintar. Essa “harmonia universal dos infernos”, que cresce nas mãos da força, jamais levará à civilização. O pouco dela que atingimos, pelo contrário, é ameaçado dia sim, dia também pela barbárie dos vendedores de fuzil.

Até quando, não sabemos. Mas um terceiro personagem de Paulo serve de alerta aos militares que ainda se empolgam com aventuras retrógradas. Em _O País dos Tenentes_, de João Batista de Andrade, Paulo vive um general que participou de movimentos militares e repassa sua trajetória no fim da vida. Os assombros de suas escolhas se revelam bem na imagem assustadora desenhada na parte final do filme: o general deitado na cama, coberto de insetos, projetando os restos podres que sobram dessa trajetória corrompida.

Fica de alerta para que se lembrem do Brasil de verdade. A vida que tem se pintado, armada e sem feijão no prato, não é a nossa. Nosso país, nossa cultura, nosso verde e amarelo… nosso sete de setembro não é a data das armas. Não é o dia dos tanques fumacentos. Das queimadas, dos gritos covardes. Muito menos do autoritarismo. Jamais a palavra “liberdade” poderá servir a tiranias.

Para quem tem dúvidas, uma das últimas falas de Paulo no final da peça _Liberdade, Liberdade_, uma mistura de citações a Abraham Lincoln e H.G Wells, traz dizeres perfeitos: “Entre os homens livres não pode haver escolha entre o voto e as armas. Os que preferirem as armas acabarão pagando caro. A verdadeira força dos governantes não está em exércitos ou armadas, mas na crença do povo de que eles são claros, francos, verdadeiros e legais. Governo que se afasta desse poder não é governo – mas uma quadrilha no poder”.

* Daniel Fraiha é jornalista e roteirista, Mestre em Criação e Produção de Conteúdos Digitais pela UFRJ e sócio da Projéteis – Criação e Roteiro

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