16.9 C
Canoas
Home Rio de Janeiro 'União das tropas': milícia escolta fiscais da prefeitura e avisa a rota...

'União das tropas': milícia escolta fiscais da prefeitura e avisa a rota em grupo de WhatsApp com motoristas de vans ilegais

Por R$ 25 por semana, são dadas informações em tempo real e até a escala e nome dos fiscais. RJ2 se infiltrou em grupo para série de reportagem especial sobre a máfia das vans. ‘União das tropas’: milícia escolta fiscais da prefeitura e avisa a rota em grupo de WhatsApp com motoristas de vans ilegais
Os milicianos que controlam as vans no Rio colocam escoltas atrás dos fiscais da prefeitura para saber onde eles estão em tempo real. A escolta acompanha as viaturas desde a saída do depósito do município até os locais das fiscalizações. O grupo sabe os nomes dos agentes, os horários e até escala de folgas deles.
Durante semanas, o RJ2 se infiltrou num grupo de WhatsApp usado por milicianos e motoristas. O “União das Tropas” tem quase 300 membros e as mensagens são trocadas por praticamente 24 horas: tudo para fugir da fiscalização e continuar a circular sem problemas por toda a cidade.
É o que mostra a segunda reportagem da série do RJ2 sobre a máfia das vans do Rio.
Máfia das vans no Rio:
Milicianos e traficantes lucram milhões à base de propinas a agentes públicos e violência
Como funciona o ‘União das Tropas’
‘União das Tropas’: veja como funciona grupo de WhatsApp para vans ilegais driblarem fiscalização no Rio
O grupo para acompanhar os fiscais da prefeitura e do estado foi criado em janeiro desse ano. O objetivo é orientar os motoristas sobre blitz e apontar onde os veículos oficiais estão, indicando o trajeto completo dos fiscais. Cada motorista paga R$ 25 por semana pelo serviço.
Segundo os motoristas de vans ouvidos pela reportagem, os milicianos usam motoqueiros para seguir as viaturas de fiscalização. As informações são divulgadas em tempo real.
A troca de mensagens começa bem cedo. Os funcionários da milícia conseguem informações como a escala de trabalho de cada fiscal, o horário que eles começam a trabalhar e até quando param para almoçar.
“Na segunda, os fiscais que folgam são Miranda e Jessé. Na terça, senhor Pereira. Na quarta, os agentes Vitor e Vinicius”, dizia um funcionário da milícia, em áudio enviado no grupo “União das Tropas”.
Por toda a cidade
As vans estão por toda parte, principalmente nas áreas de influência do crime organizado. Param fora de pontos, no meio da rua, atrapalham o tráfego e põem passageiros em risco.
No Rio Comprido, onde há forte presença do tráfico, elas circulam livremente. Na Ilha do Governador, Estrada do Galeão, quem manda também é o tráfico. As vans rodam lotadas e param nos pontos de ônibus.
Na Rodoviária de Campo Grande, há uma van ilegal parada na vaga de uma linha – a Troncal 7. E a lista não para: Praça das Nações, em Bonsucesso; Norte Shopping, Cachambi; Avenida Santa Cruz, em Realengo; Estrada de Jacarepaguá, na Freguesia; Estrada Rodrigues Caldas, na Taquara.
Na Barra da Tijuca, em uma van o itinerário está escrito “Gardenia-Pechincha Via Freguesia”. Mas ela passa longe de onde deveria. Pega passageiros na Avenida Armando Lombardi.
Na Rocinha há uma mini rodoviária: o RJ2 flagrou quatro vans parada em um ponto que não é delas.
Motoristas de ônibus intimidados
Perguntado sobre como é a disputa de passageiros entre ônibus e vans, um motorista responde: “É desleal, porque eles supostamente têm costa quente da milícia. E eles fazem o que querem. Ameaça sempre.”
“Em alguns casos, eles param a gente na rua, fazem ameaça, que é pra gente retardar a viagem, pra eles pegarem os passageiros na rua. Se não cumprir a ordem, ameaçam no ponto final, incendiar ou bater. A gente se sente amedrontado. Não sabe se volta pra casa”, diz outro motorista.
As vans chegam a impedir que ônibus parem nos pontos: “Eles param com uma van na frente, e outra corta e vai angariando os passageiros (…) Violência, é o que a gente sofre”.
Comércio de linhas e ameaças
O grupo de troca de mensagens também é utilizado pelos criminosos para a negociação de linhas. Em um dos áudios, é possível ouvir um funcionário da milícia oferecendo vagas na linha 397, que liga Campo Grande e a Central do Brasil.
“Boa noite a todos. Ainda temos vagas na linha 397, Campo Grande Central. Mesmo trajeto do ônibus. Interessados, só vim no privado”, anunciou o criminoso.
Além de negociarem linhas de van, o canal também é utilizado pelos motoristas para alertar sobre ataques de grupos de milicianos rivais.
“Boa noite, rapaziada. Aqui quem tá falando é o dono da 08, que roda ai com vocês, a Sprinter prata. Agora há pouco tentaram me sequestrar na praça do Cesarão, uma Ranger preta mandou meu motorista seguir ele, mas graças a Deus, os caras sumiram. Quem tiver na pista, peço atividade total, valeu? Negócio tá sério”, disse um dono de van.
Do outro lado do telefone, alguém ligado a milícia avisa aos motoristas que podem rodar tranquilo.
“Rapaziada que gira na Cesário aí, que gira na Zona Oeste, pode trabalhar normal, pode trabalhar normal! A rapaziada tá na pista pra trazer tranquilidade pra vocês”, orienta o funcionário da milícia.
Contudo, além de oferecer segurança, os milicianos também aproveitam o contato direto com os motoristas para ameaçar quem está devendo.
“E ai irmão deixa eu falar: ‘Tem duas vans aqui dentro do Manguariba, irmão. Tipo assim, não esculachamos ninguém, irmão. Eu quero o dinheiro até quinta-feira, metade do dinheiro da Brasil. Valeu, irmão?”, postou um miliciano.
Quatro prefeitos sem sucesso
As vans começaram a aparecer nas ruas do Rio de Janeiro na década de 90. O aumento do número de veículos foi consequência da abertura do país para a importação de carros.
Na época, a maioria dos motoristas de van já apostava no transporte irregular de passageiros. Eles cobravam o mesmo preço da passagem do ônibus, mas muitos não respeitavam as leis de trânsito e atrapalhavam o fluxo de veículos.
Há décadas, poder público do Rio fracassa em frear a máfia das vans
O então prefeito do Rio Luiz Paulo Conde, tentou barrar o avanço das vans, mas não teve sucesso. O setor continuou crescendo durante a gestão de Cesar Maia.
Já Eduardo Paes, quando assumiu a prefeitura pela primeira vez, prometeu colocar ordem no transporte alternativo. A solução anunciada seria tecnológica, com monitoramento por satélite.
Segundo o planejamento da época, as rotas ficariam registradas e quem não respeitasse o trajeto poderia perder a licença.
Para liderar a operação de fiscalização mais rigorosa, o prefeito nomeou Claudio Ferraz, que já tinha sido chefe da Delegacia de Combate ao Crime Organizado. Ferraz seguiu no cargo mesmo após o início da gestão de Marcelo Crivella.
Contudo, o novo prefeito publicou um decreto liberando as vans para circularem fora dos trajetos determinados pela prefeitura.
Em 2018, o RJ2 mostrou que as vans rodavam livremente pela cidade. E a grande maioria dos veículos eram ilegais.
Cláudio Ferraz, chegou a dizer que os carros da prefeitura não podiam fiscalizar porque não tinham gasolina pra ir às ruas.
No ano seguinte, Crivella concedeu às vans a anistia de multas aplicadas.
Atualmente, a prefeitura fiscaliza as vans com agentes da Coordenadoria Especial de Transporte Complementar, órgão ligado à Secretaria de Ordem Pública. Além da Guarda Municipal, que deveria fiscalizar as normas de trânsito.
Por parte do Governo do Estado, o órgão responsável é o Departamento de Transportes Rodoviários do Estado do Rio de Janeiro (Detro), que fiscaliza as vans intermunicipais.
O que dizem os envolvidos
A equipe do RJ2 tentou novamente uma entrevista com um representante da Prefeitura do Rio, mas ainda não teve resposta.
A prefeitura informou que está recadastrando, desde julho, os 2.279 motoristas de vans licitadas para o transporte de passageiros na cidade. E cada motorista pode indicar até dois auxiliares.
A Secretaria Municipal de Ordem Pública disse ainda que pode convocar presencialmente qualquer permissionário, dependendo do tipo de infração cometida ou ainda se houver denúncia grave recebida pela central 1746, com informações sobre a placa do veículo.
A prefeitura disse também que os permissionários podem ser chamados para verificação do sistema de GPS.

- Advertisement -

Conecte

0FansLike
7FollowersFollow