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Visita de ex-secretário a traficantes fora do RJ foi documentada, autorizada e em nome do estado


Raphael Montenegro e outros dois integrantes da cúpula da secretaria de Administração Penitenciária receberam autorização da Justiça do Paraná e diziam ter o OK da Vara de Execuções Penais do Rio. RJ2 tem acesso a documentos que mostram negociação de secretário preso para visitar bandidos perigosos fora do RJ
A visita do ex-secretário de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro, Raphael Montenegro, para negociar com traficantes de alta periculosidade em um presídio federal não foi um ato isolado. Mas documentada, autorizada e em nome do estado.
Ele e mais dois integrantes da cúpula da secretaria de Administração Penitenciária receberam autorização da Justiça do Paraná e diziam ter o OK da Vara de Execuções Penais do Rio, como mostram documentos a que o RJ2 teve acesso. Todos foram presos suspeitos de se associarem a traficantes na terça-feira (17).
Ao todo, dez traficantes foram visitados na Penitenciária Federal de Catanduvas.
Para conseguir entrar no lugar, Raphael Montenegro contactou a Justiça Federal do Paraná e justificou os encontros como necessários para a coleta de informações para posterior utilização em pareceres da secretaria acerca da pertinência do retorno dos apenados ao estado do Rio de Janeiro.
O secretário teria informado ainda que o juízo da Vara de Execuções Penais do Rio se manifestou favoravelmente ao pedido. Só que, em nota, a VEP afirmou que não foi informada das visitas.
Em 10 de maio, a Justiça Federal autorizou os encontros.
Ex-secretário não esperou nem a pandemia
O diretor da penitenciária federal de Catanduvas, Carlos Luís Vieira Pires, disse que os encontros poderiam ocorrer por videoconferência ou presencialmente, a critério do então secretário.
Ele solicitou que, caso fossem presenciais, ocorressem em ocasião futura quando a pandemia estivesse mais controlada, para minimizar riscos de contágios aos internos e aos servidores. Pedido que foi ignorado por Raphael Montenegro.
Outro documento oficial do diretor da penitenciária sugere três opções de datas, porque o secretário registrou necessidade do contato pessoal entre o avaliador e o preso.
Raphael Montenegro, secretário de Administração Penitenciária do Rio, foi predo na terça-feira (17)
Reprodução
Sem investigação no estado
No dia seguinte à prisão de Raphael Montenegro, o Diário Oficial do Estado não trouxe a abertura de nenhuma investigação para esclarecer as irregularidades cometidas pelo ex-secretário.
Nenhuma sindicância, nem procedimento. Mesmo com o ex-secretário negociando com os traficantes como um representante do governo.
O presidente da Alerj, André Ceciliano, do PT, disse que os deputados vão acompanhar o caso, mas não prometeu nenhuma medida efetiva para apurar as irregularidades.
“A Assembleia vai participar, vai acompanhar as investigações com a Comissão de Segurança Pública, a nossa comissão permanente. Mas está mais afeito ao executivo, porque é um secretário que representa o executivo. Não é o caso de CPI”, disse Ceciliano.
Nós perguntamos também ao presidente da Comissão de Segurança Pública da Alerj, deputado delegado Carlos Augusto, do PSD, se alguma autoridade será convocada pra prestar explicações.
E ele disse que vai botar o assunto em pauta na próxima reunião da comissão para decidir o que fazer.
Postura imoral
Como a viagem do então secretário e seus subordinados foi oficial, o RJ2 solicitou à Seap quais os valores gastos com passagens, diárias e hospedagem, mas ainda não teve resposta.
A prisão de Raphael Montenegro foi determinada pelo desembargador Paulo Espírito Santo, do Tribunal Regional Federal da Segunda Região. Na decisão, o magistrado afirma que os elementos apresentados pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal demonstram uma postura imoral.
E que, como secretário de Administração Penitenciária, ele não estava, segundo o desembargador, nem um pouco preocupado em coibir o tráfico de drogas e demais crimes gravíssimos dele derivados.
E que, ao contrário, seu objetivo era incentivar e facilitar a continuidade dos crimes em alta escala.
Em uma das conversas, Raphael Montenegro chega a sugerir que um traficante recuperaria pontos de venda de drogas se deixasse Catanduvas e voltasse a ficar preso no estado do Rio.
Fabiano Atanásio, conhecido como FB, era chefe do tráfico de drogas na Vila Cruzeiro e apontado como um dos traficantes mais perigosos do Rio.
Informações de inteligência a que o RJ2 teve acesso apontam que, preso, FB perdeu espaço na facção. No diálogo com ele, o então secretário tenta convencer o traficante:
“Outra coisa, você voltando a gente sabe que você vai ganhar lá um espacinho para você se levantar”, disse.
O então secretário complementa:
“A gente teve essa conversa com Charles do Lixão quando ele voltou e ele falou “Pô, seu secretário, meu negócio é o seguinte, eu só quero vender minhas paradinhas e tocar minha vida.
E pergunta: contigo é assim ?”
Fb responde: “Pô, seu eu tiver uma paradinha lá fora, o senhor vem até mim, com certeza , pô, o diálogo vai estar sempre aberto”.
Nós perguntamos ao Estado por que nenhuma investigação foi aberta sobre os fatos que motivaram a prisão do ex-secretário. O governo informou que a Seap instaurou, sim, uma sindicância, e encaminhou o número.
Mas a abertura do processo só ocorreu agora há pouco, às 18h13. Cinquenta minutos depois do nosso pedido de posicionamento.

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