O alinhamento entre o governo federal e o Estado do Rio de Janeiro no combate ao crime organizado recoloca a segurança pública no centro do debate nacional. Mais do que um gesto político, a articulação entre diferentes esferas de poder sinaliza o reconhecimento de que o enfrentamento às organizações criminosas exige coordenação institucional, inteligência compartilhada e estratégias de longo prazo. Este artigo analisa o significado desse alinhamento, seus potenciais efeitos práticos e os desafios que precisam ser superados para que a cooperação se traduza em resultados concretos para a sociedade.
O crime organizado no Rio de Janeiro assumiu, ao longo dos anos, características complexas e multifacetadas. Grupos armados operam não apenas no tráfico de drogas, mas também em atividades como extorsão, controle territorial, exploração de serviços ilegais e lavagem de dinheiro. Essa estrutura não respeita fronteiras administrativas e se beneficia de lacunas entre políticas federais e estaduais. Nesse contexto, a ausência de coordenação histórica contribuiu para ações fragmentadas, muitas vezes ineficazes, que não atacam o núcleo financeiro e logístico dessas organizações.
O alinhamento entre União e Estado representa um avanço ao reconhecer que o enfrentamento ao crime organizado não pode ser responsabilidade isolada das polícias estaduais. Órgãos federais possuem instrumentos estratégicos relevantes, como inteligência financeira, controle de fronteiras, cooperação internacional e capacidade investigativa ampliada. Quando essas competências são articuladas com o conhecimento territorial das forças locais, cria-se um ambiente mais favorável à desarticulação de redes criminosas em vez de apenas confrontos pontuais.
Do ponto de vista operacional, a integração permite uma mudança de foco. Em vez de ações reativas baseadas em operações ostensivas de curto prazo, a cooperação pode priorizar investigações estruturadas, identificação de lideranças e bloqueio de fluxos financeiros ilícitos. Essa abordagem tende a produzir impactos mais duradouros, reduzindo a capacidade de recomposição das facções após intervenções policiais. No entanto, para que isso ocorra, é essencial que o alinhamento vá além do discurso e se traduza em protocolos claros, troca contínua de informações e metas compartilhadas.
Outro aspecto relevante é a dimensão institucional. A atuação conjunta entre governo federal e Estado do Rio de Janeiro pode fortalecer a legitimidade das ações de segurança pública. A percepção de esforço coordenado transmite à sociedade a ideia de planejamento e responsabilidade, reduzindo a sensação de improviso que frequentemente acompanha anúncios de operações isoladas. Além disso, a cooperação amplia a capacidade de monitoramento e controle, o que é fundamental para evitar abusos e garantir respeito aos direitos fundamentais.
Entretanto, o simples alinhamento político não elimina desafios históricos. A fragmentação de dados, a disputa por protagonismo institucional e a instabilidade de políticas públicas são obstáculos recorrentes. A continuidade das ações é um ponto crítico, especialmente em um ambiente marcado por mudanças frequentes de prioridades conforme ciclos eleitorais. Sem mecanismos de governança estáveis, o risco é que a cooperação se limite a iniciativas pontuais, sem impacto estrutural no enfrentamento ao crime organizado.
Há também um desafio estratégico relacionado à definição de sucesso. Historicamente, operações de segurança no Rio de Janeiro foram avaliadas por indicadores imediatos, como prisões e apreensões. No combate ao crime organizado, esses critérios são insuficientes. Resultados consistentes exigem métricas que considerem a redução do poder econômico das organizações, a diminuição da violência ao longo do tempo e a recuperação efetiva de territórios pelo Estado. O alinhamento entre governos precisa incorporar essa mudança de parâmetros para evitar a repetição de estratégias pouco eficazes.
Além da repressão qualificada, o enfrentamento ao crime organizado demanda políticas complementares. A ausência do Estado em serviços básicos cria condições favoráveis para a expansão de grupos criminosos, que passam a exercer funções de controle e mediação em comunidades vulneráveis. Assim, a integração entre União e Estado deve dialogar com políticas sociais, urbanas e econômicas capazes de reduzir a dependência da população em relação a estruturas ilegais. Segurança pública, nesse sentido, não pode ser dissociada de inclusão social e desenvolvimento.
O papel da inteligência financeira merece destaque nesse novo arranjo. Organizações criminosas sobrevivem e se expandem graças à capacidade de movimentar recursos ilícitos. A atuação coordenada para rastrear, bloquear e confiscar esses ativos é uma das formas mais eficazes de enfraquecer o crime organizado. Quando o foco se desloca do confronto armado para a asfixia econômica, os custos sociais da violência tendem a diminuir, e o Estado ganha vantagem estratégica.
Em síntese, o alinhamento entre o governo federal e o Estado do Rio de Janeiro no combate ao crime organizado representa uma oportunidade relevante para redefinir a política de segurança pública. O sucesso dessa iniciativa dependerá da capacidade de transformar cooperação política em ação institucional contínua, baseada em inteligência, integração e avaliação rigorosa de resultados. Combater o crime organizado exige mais do que força. Exige coordenação, planejamento e a disposição de romper com modelos que já demonstraram seus limites.
Autor: Scarlet Petrovic

