Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça, continua no comando do Executivo estadual depois de uma sucessão de renúncias que atingiu os dois primeiros cargos na linha sucessória.
O estado do Rio de Janeiro vive, desde março de 2026, uma situação pouco comum na política brasileira recente: o governo estadual está sob o comando de um magistrado, e não de um político eleito para o cargo. O desembargador Ricardo Couto de Castro, presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), assumiu interinamente o Palácio Guanabara em 23 de março, depois da renúncia do então governador Cláudio Castro, do PL. A situação chegou a esse ponto por causa de uma sequência de saídas que esvaziou as duas primeiras posições da linha sucessória estadual, um cenário que ainda gera dúvidas na população fluminense sobre quem, afinal, está no comando do estado e até quando essa configuração deve durar.
Para entender a origem da crise é preciso voltar a maio de 2025, quando o então vice-governador Thiago Pampolha, do MDB, deixou o cargo para assumir uma vaga no Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ). Naquele momento, o posto de vice-governador ficou vago, mas a linha sucessória seguia intacta, já que o presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar, ocuparia o cargo em caso de necessidade. O problema é que Bacellar estava afastado da presidência da Alerj desde dezembro de 2025, por decisão do Supremo Tribunal Federal, o que retirou dele a possibilidade de assumir o governo estadual quando a vacância se tornou definitiva.
A renúncia que provocou a crise sucessória
O ponto de virada aconteceu em 23 de março de 2026, quando Cláudio Castro renunciou ao governo alegando a intenção de disputar uma vaga no Senado Federal nas eleições de outubro. A renúncia tinha um motivo jurídico específico: a legislação eleitoral exige que candidatos a cargos eletivos se desincompatibilizem de funções públicas com seis meses de antecedência em relação ao pleito, regra reforçada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Poucos dias depois, no entanto, Cláudio Castro desistiu da candidatura ao Senado, mas a renúncia ao governo já havia sido consumada e não poderia ser revertida.
Com a saída simultânea de governador e vice-governador, e com o presidente da Alerj afastado, a única autoridade disponível na linha sucessória estadual passou a ser o presidente do TJRJ. Foi assim que Ricardo Couto de Castro, magistrado carioca com carreira construída na Defensoria Pública e depois na magistratura, assumiu o comando do Executivo fluminense. Segundo reportagem da CartaCapital, Couto é casado, pai de dois filhos, torcedor do Botafogo, e iniciou a carreira pública em 1989, quando foi aprovado em primeiro lugar em concurso para a Defensoria.
Disputa jurídica sobre eleição direta ou indireta
A Constituição do Estado do Rio de Janeiro prevê que, em caso de vacância simultânea dos cargos de governador e vice-governador, cabe à Assembleia Legislativa eleger um novo governador de forma indireta, com voto dos 70 deputados estaduais. Uma eleição indireta chegou a ser convocada para 22 de abril de 2026, mas o processo terminou suspenso em meio a uma disputa jurídica sobre o formato mais adequado para a escolha do novo chefe do Executivo estadual. O Supremo Tribunal Federal chegou a discutir, a partir de 8 de abril, se a eleição deveria ser indireta, restrita aos deputados estaduais, ou direta, com participação de todo o eleitorado fluminense.
O desfecho dessa disputa levou o ministro Cristiano Zanin, do STF, a decidir, em 24 de abril, manter Ricardo Couto no cargo de governador interino até que a situação fosse resolvida pelas urnas em outubro. Especialistas ouvidos pela revista Consultor Jurídico (Conjur) defenderam que a manutenção do presidente do TJRJ no comando do Executivo preserva a ordem institucional do estado, já que Couto ocupava a posição de governador interino no momento em que o TSE cassou os mandatos de Cláudio Castro, do ex-vice Thiago Pampolha e do ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar, e a linha sucessória não retroage para restabelecer nomes que já foram afastados.
O que o governo interino tem feito até agora
Desde que assumiu, Ricardo Couto tem adotado uma postura de auditoria e enxugamento da máquina pública estadual. Em abril, determinou uma auditoria em todas as secretarias e órgãos da administração direta e indireta do Rio, incluindo empresas estatais, com prazo de 15 dias úteis para que cada entidade detalhasse contratos superiores a R$ 1 milhão firmados no último ano, previsões de despesas e o número de servidores efetivos, comissionados e terceirizados em cada órgão. A medida ocorre em um cenário fiscal delicado, já que o orçamento fluminense de 2026 prevê déficit de R$ 18 bilhões, e o número de cargos em comissão havia crescido 47,86% entre 2021, início do governo Castro, e o momento da renúncia, em março deste ano.
Pesquisas de opinião realizadas nos primeiros meses de governo interino mostram um saldo relativamente positivo para Couto junto ao eleitorado fluminense. Levantamento da Futura/Apex, divulgado em 6 de maio, apontou que 52,9% dos eleitores do estado aprovavam a atuação do governador interino, contra 38,5% de desaprovação. Já na avaliação mais ampla da gestão, 31,6% classificaram o governo como ótimo ou bom, 31,3% como regular e 27,9% como ruim ou péssimo.
O que muda com as eleições de outubro
A solução definitiva para a crise de comando no Executivo fluminense só deve vir com as eleições estaduais de 2026, marcadas para 4 de outubro, em turno único, quando o eleitorado do Rio de Janeiro vai escolher governador, vice-governador, dois senadores, 46 deputados federais e 70 deputados estaduais para um mandato de quatro anos, que vai de janeiro de 2027 a janeiro de 2031. Entre os nomes mais citados para a disputa ao Palácio Guanabara está o atual prefeito do Rio, Eduardo Paes, do PSD, apontado como favorito em pesquisas de intenção de voto divulgadas no fim de 2025. Outros nomes mencionados incluem Washington Reis, Anthony Garotinho, Wilson Witzel e candidaturas ligadas ao campo de esquerda, como as de Mônica Benício e Fabiano Horta.
Até lá, o Rio de Janeiro segue em uma situação inédita de governo interino prolongado, com um magistrado no comando de um estado que enfrenta desafios fiscais e de segurança pública ao mesmo tempo em que se prepara para um pleito decisivo. A expectativa entre analistas políticos é que a campanha eleitoral, que já começa a se estruturar com a formalização de candidaturas prevista para agosto, traga mais clareza sobre quem vai efetivamente assumir o governo estadual a partir de 2027, encerrando um dos episódios mais atípicos da política fluminense dos últimos anos.
Fontes consultadas:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Elei%C3%A7%C3%A3o_indireta_para_governador_do_Rio_de_Janeiro_em_2026
https://www.conjur.com.br/2026-abr-23/manter-presidente-do-tj-como-governador-preserva-ordem-institucional-do-rio/
https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2026-04/zanin-mantem-presidente-do-tjrj-no-cargo-de-governador-interino-do-rio
https://www.poder360.com.br/poder-pesquisas/ricardo-couto-pesquisa-avaliacao/
https://www.cartacapital.com.br/politica/quem-e-ricardo-couto-que-assume-o-governo-do-rio-apos-a-renuncia-de-castro/

