Antes de qualquer proposta ser apresentada, uma negociação empresarial já carrega um número invisível que decide boa parte do resultado final: a alternativa real que cada parte teria caso o acordo não se concretizasse. Esse cálculo tem nome técnico, BATNA, sigla em inglês para melhor alternativa a um acordo negociado, e ignorá-lo costuma ser o motivo mais comum de uma concessão maior do que o necessário.
Nesse contexto, Haroldo Augusto Filho, executivo da Fource Consultoria com atuação em negociação empresarial e gestão de conflitos, observa que grande parte dessas concessões nasce da pressa em fechar, não da falta de margem real. Sem mapear a própria alternativa antes de sentar à mesa, qualquer limite vira intuição. A régua que deveria orientar cada resposta simplesmente não existe, e essa ausência custa mais caro do que qualquer erro tático durante a conversa.
O que muda quando existe uma alternativa real fora da mesa?
Imagine dois fornecedores disputando o mesmo contrato. Um deles já tem outro comprador interessado; o outro não tem nenhuma proposta em andamento. Mesmo que ambos peçam o mesmo preço, o primeiro negocia de um lugar completamente diferente: pode recusar uma condição ruim sem medo, porque tem para onde ir.
Haroldo Augusto Filho explica que o conceito foi formulado por Roger Fisher e William Ury no livro “Como chegar ao sim”, publicado a partir de pesquisas do Harvard Negotiation Project no início dos anos 1980. A ideia central é simples: quem entra numa negociação sem alternativa mapeada negocia por necessidade, não por escolha, e tende a aceitar termos piores só para não sair de mãos vazias.
Como calcular a própria alternativa antes de sentar à mesa?
O primeiro passo é listar, com honestidade, o que existe fora daquela mesa específica. Outro fornecedor, outro cliente, um processo interno que resolveria o problema sem depender do acordo. Haroldo Augusto Filho analisa que ideias de alternativas vagas do tipo “algo vai aparecer” não contam, porque não sustentam limite nenhum na hora da pressão.

Depois, cada alternativa levantada precisa de um valor real: custo, prazo, risco de não dar certo. Só assim nasce o preço de reserva, o ponto abaixo do qual fechar o acordo passa a valer menos do que simplesmente seguir sem ele. Esse número, uma vez definido, funciona como piso silencioso durante toda a conversa.
Por que o BATNA da outra parte também precisa entrar na conta?
Calcular só a própria alternativa resolve metade do problema. Quem negocia sem estimar a alternativa do outro lado costuma superestimar a própria força ou, o oposto, ceder além do necessário por medo de um poder que talvez nem exista. Haroldo Augusto Filho descreve esse cruzamento como o ponto em que a preparação técnica separa o resultado sorteado do resultado construído.
Informações públicas sobre o setor, o momento financeiro da outra empresa e histórico de negociações anteriores ajudam a estimar essa alternativa alheia. Quanto mais estreita for a margem entre as duas alternativas calculadas, o que a literatura de negociação chama de zona de possível acordo, mais previsível fica o intervalo em que um fechamento faz sentido para os dois lados.
Quando a alternativa aponta que é hora de sair da mesa?
Uma proposta chega abaixo do valor já calculado como alternativa, e a tentação é aceitar assim mesmo, por cansaço ou por medo do desgaste da relação. Esse é exatamente o momento em que insistir custa mais do que desistir, e reconhecê-lo é tão estratégico quanto qualquer técnica de abertura de negociação.
Em síntese, Haroldo Augusto Filho aponta que abandonar uma negociação nesses termos não é fracasso, é disciplina. Uma alternativa bem calculada protege menos o resultado imediato e mais a coerência de quem negocia: decisões tomadas com critério raramente precisam ser explicadas depois. É esse critério, mais do que qualquer argumento de ocasião, que sustenta acordos que resistem ao tempo.

