Taiza Tosatt Eleoterio, especialista em saúde mental e relações familiares, escuta com frequência a pergunta de quem observa uma relação abusiva de fora: por que ela não vai embora? A questão, ainda que venha de boa intenção, carrega uma simplificação que pode causar mais distância do que ajuda. Sair de um relacionamento abusivo é um processo complexo, e tratá-lo como uma decisão simples ignora tudo o que está em jogo.
Compreender por que essa frase raramente funciona é um passo importante para oferecer apoio de verdade. Em vez de cobrar uma saída imediata, vale entender os obstáculos reais que cercam essa mulher e acolher o tempo que ela precisa.
O abuso constrói uma teia difícil de desfazer
Relações abusivas não se resumem a episódios isolados. Elas costumam funcionar como uma teia que se constrói aos poucos, misturando momentos de tensão com momentos de aparente reconciliação. Essa alternância confunde e cria uma esperança constante de que a situação vai melhorar. A mulher fica presa não apenas ao parceiro, mas a um ciclo que mexe profundamente com suas emoções.
Taiza Tosatt Eleoterio explica que, dentro dessa teia, a autoestima costuma estar bastante fragilizada. O abuso emocional vai minando, pouco a pouco, a confiança da mulher em si mesma e na própria capacidade de decidir. Quando alguém de fora pede que ela simplesmente vá embora, desconsidera o quanto esse terreno interno já foi abalado pela própria relação.
Os medos que prendem
Existe uma série de medos concretos que dificultam a saída. Medo de represálias, medo pela segurança dos filhos, medo de não ter para onde ir e medo de não conseguir se sustentar financeiramente são apenas alguns deles. Esses receios não são exagero. Em muitos casos, a saída é, de fato, o momento mais delicado de toda a situação, e exige planejamento e cuidado.
Por isso, a leitura apressada de que basta querer ignora a realidade. Taiza Tosatt Eleoterio observa que respeitar esses medos é fundamental para não revitimizar a mulher. Ao reconhecer que ela enfrenta obstáculos verdadeiros, quem está por perto deixa de cobrar e passa a apoiar, o que faz toda a diferença na construção de uma saída segura.
A vergonha e o isolamento
Outro fator que pesa é a vergonha. Muitas mulheres sentem que serão julgadas por terem permanecido ou por terem se envolvido naquela relação. Esse sentimento se soma ao isolamento que o próprio abuso costuma provocar, já que o controle frequentemente afasta a mulher de amigos e familiares. Quando a rede de apoio se enfraquece, pedir ajuda se torna ainda mais difícil.
Romper esse isolamento exige acolhimento sem julgamento. Uma escuta que não cobra explicações e que não responsabiliza a mulher pelo abuso sofrido cria o espaço seguro de que ela precisa. Taiza Tosatt Eleoterio ressalta que a presença constante de pessoas confiáveis, mesmo sem grandes gestos, ajuda a reconstruir a sensação de que ela não está sozinha.
Apoiar o processo, não cobrar o resultado
A forma mais eficaz de ajudar é acompanhar o processo, e não exigir um desfecho imediato. Isso significa estar disponível, ouvir, oferecer informações sobre redes de apoio e respeitar o ritmo da mulher. Cada pessoa tem seu tempo, e pressionar pode acabar afastando justamente quem mais precisa de proximidade naquele momento.
Taiza Tosatt Eleoterio costuma lembrar que a paciência é uma forma de respeito. A mulher que se sente acolhida, e não cobrada, encontra com mais facilidade a força para tomar suas decisões. Substituir o “por que você não vai embora” por um “estou aqui quando você precisar” muda completamente a qualidade do apoio oferecido.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

